Determinando A Eternidade Da Violência No Homo violens - Das Várias Faces Do Homo Violens


"A célebre fórmula de Aristóteles, definindo o homem como zoon politikon, 'animal político', expressão que conviria traduzir como homo politicus , indica bastante claramente que o homem é feito para viver em sociedade, que ele é feito por e para a cidade, que a atividade política, no sentido pleno do termo, lhe é consubstancial. Características paralelas, que testemunham diversas modalidades da atividade humana, nos são então impostas: homo religiosus, homo aeconomicus, homo aestethicus, valorizando os vínculos de homem com o sagrado, com as trocas e a produção, com a beleza; e se formos mais além, encontraremos um homo hierarchicus, preso a uma organização hierárquica da sociedade, face a um homo aequalis, que seria o homem do povo fomentado por uma ideologia igualitária ― e assim poderíamos prosseguir longamente esta declinação do gênero homo...


Nosso propósito agora é o de introduzir uma outra característica do homem, que consideramos primordial, essencial, e até mesmo constitutiva de seu ser, a saber: a violência. Homo violens , tal como o apresentamos e analisamos aqui, é o ser humano definido, estruturado, intrínseca e fundamentalmente pela violência."



Acima, Roger Dadoun resume o que é o homo violens em A Violência – Ensaio Acerca Do "Homo violens" (1998). Mais do que nunca, mais do que é necessário a esse nunca, podemos nos inserir no Homo violens. Não há neste mundo um ser humano desprovido de sua essência Homo violens. Mecanismos como as religiões e as leis não deprimem o crescimento das manifestações do Homo violens. Muitas ideologias exaltam o Homo violens. Muitos ismos exaltam o Homo violens. Se um ser humano, um ser humano autêntico, ciente de suas limitações internas e externas, mira-se no espelho de sua consciência e pode ver-se como realmente é, tal ser humano entra em contato com a fera escondida em seu Eu: o Homo violens. Se um ser humano, um ser humano que acha-se bom demais para dizer-se fora de toda violência, fora de todo ato violento, tal ser humano é uma verdadeira desgraça, um cego a negar a fera que em si habita e que se denomina Homo violens.

Predomina neste mundo contemporâneo em desgraça todo tipo de violência determinada pelo homo violens e a total desumanização propiciada pelo propagar-se externo do Homo violens. Desgraça Contemporânea é o termo mais determinativo do que é hoje este mundo tão deteriorado em suas estruturas, fundamentos e inúmeras outras características que moldam-no como uma esfera habitável por seres racionais. "Seres racionais", a maioria humana? Diante do radicalismo de todo tipo de violência, diante do pluralismo de todo tipo de violência, a expressão "ser racional" perde a singularidade de sua emanações à mente humana dos seus significados intrínsecos. Racionais podemos ser quando admitimos nossa violência em diversos níveis, graus, subníveis, degraus, escalas e escadas de nossa consciência. Violência física. Violência moral. Violência política. Violência sexual. Violência do egoísmo. Violência do preconceito. Violência do descaso com todo tipo de violência. Violência da desatenção para com todo tipo de violência. Violência da aceitação de todo tipo de violência. Violência da aceitação da continuação de todo tipo de violência. Violência do acostumar-se diariamente com todo tipo de violência. Violência do ajustar-se diariamente como supostamente livre de todo tipo de violência. Violência, violência, violência: a palavra formadora de um mundo novo que podemos denominar como Mundo Da Desumanidade.

Exatamente para expressar a extrema autenticidade das palavras acima, podemos ver em A Condição Humana (1958), de Hannah Arendt (1906-1975), uma complementação acerca do que foi dito sobre o acostumar-se e ajustar-se diariamente a todo tipo de violência:


"A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente, as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e, até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições que, a despeito de sua variabilidade e origem humana, possuem a mesma força condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência humana. É por isto que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do mundo ― o seu caráter de coisa ou objeto ― e a condição humana complementam-se uma à outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não-mundo, se esses artigos não fossem condicionantes da existência humana".


Condicionados pela violência, somos objetivamente obrigados a convivermos diariamente com ela. Os humanos, todos os humanos, com as suas inúmeras limitações impostas por tudo que os condicionam a um determinado tipo de comportamento e por suas próprias naturezas internas tornadas conseqüentemente limitadas, a todo momento cristalizam-se na rotina do acostumar-se e do ajustar-se diariamente à violência.


"Ser um espectador de calamidades ocorridas em outro país é uma experiência moderna essencial, a dádiva acumulada durante mais de um século e meio graças a esses turistas profissionais e especializados conhecidos pelo nome de jornalistas. Agora, guerras são também imagens e sons na sala de estar. As informações sobre o que se passa longe de casa, chamadas de 'notícias', sublinham conflito e violência ― 'Se tem sangue, vira manchete', reza o antigo lema dos jornais populares e dos plantões jornalísticos de chamadas rápidas na tevê ― aos quais se reage com compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação, à medida que cada desgraça se apresenta."


Susan Sontag (1933-2004), com as palavras ditas acima em Diante Da Dor Dos Outros (2003), denuncia o costume de aceitar-se como trivial as desgraças humanas que pelo mundo ocorrem e que são festivamente apresentadas pelas emissoras de televisão. Costume do mundo contemporâneo, aceita apenas como reação aos seus efeitos diretos nas consciências a presença da habilitação excessiva destas na "compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação" naqueles que assistem a tais imagens como a blockbusters, os grandes sucessos semanais das salas de cinema que visam somente ao lucro e não ao repassar de pensamentos profundos e grandes exemplos de vida. As emissoras lucram, claro, com a audiência obtida pela demonstração na tela pequena de tais imagens tratadas como cinematográfias; mas, as reações a elas são descartáveis. Compaixão pura pelo sofrimento alheio não faz o surgir do incondicionar-se do acostumar-se e ajustar-se diariamente à violência. Indignação pura pelo fato violento verificado pelo olhar e com o ouvir dos caracteres típicos de qualquer ato de violência é apenas algo momentâneo, passageiro, superficial. Excitação pura propórcionada pelo visualizar de qualquer ato de violência é alimento de loucos, loucos verdadeiros que não admitem a sua loucura, os "profetas" da violência, como Arendt denomina tal categoria de indivíduo humano em Da Violência. Aprovação pura da violência, como nos casos de pena de morte, dos linchamentos e da "justiça com as próprias mãos" defendida pelos que se autodenominam "justiceiros", é infantilidade suprema coroada com os princípios mais altos da mais pura e alta imbecilidade.


Ponhamos agora em questão um outro fator tão latentemente problemático como o sinalizado no parágrafo acima e façamos após uma reflexão que una o que essas duas últimas faces da violência aqui apresentadas podem proporcionar ao entendimento intelectivo. Arendt aponta para uma finalidade da violência no citado ensaio acima Da Violência:


"A violência, sendo instrumental por natureza, é racional até o ponto de ser eficaz em alcançar a finalidade que deve justificá-la. E já que quando agimos, jamais saberemos com certeza quais serão as eventuais conseqüências, a violência só pode manter-se racional se buscar objetivos a curto prazo. A violência não promove causas, nem a história nem a revolução, nem o progresso, nem a reaçaõ, mas pode servir para dramatizar reclamações trazendo-as à atenção do público. Conforme observou Conor Cruise O'Brien, agricultor irlandês do século XIX e agitador nacionalista: 'algumas vezes a violência é a única maneira de assegurar que a voz dos moderados será ouvida'. Pedir o impossível para que se possa obter o possível não é sempre contraproducente. E de fato, a violência, contrariamente ao que tentam nos dizer os seus profetas, é a arma mais da reforma do que da revolução".


Mas, pensemos bem com o que podemos eventualmente termos como incondicionado em nossas mentes: o mecanismo feroz da violência é o modo que mais pode chamar a atenção para qualquer sentido de mudança, para qualquer tipo de reforma da existência humana? A violência, seja extremista, seja não-extremista, sempre continuamente alimenta o ciclo das tragédias, dores e desgarças maiores humanas. Atenta-se Arendt a um pormenor de sua reflexão a ser considerado:


"Ademais, o perigo da violência, mesmo que esta se movimente dentro de uma estrutura não-extremista de objetivos a curto prazo, será sempre que que os meios poderão dominar os fins. Se os objetivos não forem alcançados rapidamente, o resultado será não meramente a derrota, mas a introdução da prática da violência em todo o organismo político. A ação é irreversível, e um retorno ao status quo em caso de derrota é sempre pouco provável. A prática da violência como toda ação, transforma o mundo, mas a transformação mais provável é em um mundo mais violento".


Analisando os dois últimos parágrafos acima, podemos ver que as reações diante da violência e a procura de uma finalidade ideológica para a violência são de sonoros destrutivismos essenciais no que tencionam como objetividade. Esses sonoros destrutivismos, impiedosos inimigos da correta visualização do problema da violência, encarceram na mesma prisão da ignorância sobre como a esta enfrentar verdadeiramente as duas classes sociais antagônicas do mundo. A classe pobre do mundo, a mais desprovida de meios para fugir da violência, não possui uma voz grandiosa que busque, além do já buscado, uma solução para o problema da violência. A classe rica, a eterna classe governante do mundo, possui uma voz grandiosa, uma voz poderosa, uma voz dedicada tanto ao domínio socioeconômico mundial que poderia, utilizando-se desse domínio, manejar todas as armas possíveis para uma reforma verdadeiramente eficaz do mundo que viesse a solucionar o problema da violência. A classe rica, a eterna governante do mundo, com o poder todo que em si eleva-se a alturas máximas, poderia utilizar a sua voz de comandante de todos os destinos socioeconômicos mundiais na implantação daquela reforma e na solução do problema da violência. No entanto, o que os indivíduos socioeconomicamente mais dispostos a serem os senhores agentes de uma reforma humana que conjuntamente resolva o problema da violência em todo o globo terrestre fazem?


"O belo raciocínio desses senhores, dos pontifíces do dever social, supõe que a violência não poderá mais aumentar, ou até que diminuirá à medida que os intelectuais se mostrarem mais amáveis, vulgares e fingidos em honra da união das classes. Infelizmente para esses grandes pensadores, as coisas se passam de modo bem distinto. Verifica-se que a violência não cessa de aumentar, quando deveria diminuir segundo os princípios da alta sociologia. Há, com efeito, miseráveis socialistas que aproveitam a covardia burguesa para arrastar as massas num movimento que, a cada dia que passa, torna-se menos semelhante àquele que deveria resultar dos sacrifícios consentidos pela burguesia para obter a paz. Por pouco os sociólogos não diriam que os socialistas trapaceiam e empregam procedimentos desleais, tanto os fatos respondem mal às suas previsões".


A covardia, a falta de empenho social maior, da burguesia, a hoje conhecida classe social governante e dominante do Planeta Terra, no tempo de Georges Sorel (1847-1922) já era nítida. As previsões dos sociólogos daquele tempo, talvez atendendo mais aos interesses burgueses do que propriamente a um interesse social geral, a História provou que não se cumpriram. Genialmente, em Reflexões Sobre A Violência (1908), Sorel analisa, sob a ótica intelectiva de seu tempo, o problema que hoje acomete a todo o mundo e que já se apresentava à classe dominante que poderia, se pelo menos não extinguindo-o todo, apenas em parte atenuá-lo e subjugá-lo sob um certo mecanismo eficiente de controle. O eterno desinteresse da classe governante em atentar-se aos perigos da violência ultrapassou a época de Sorel e está aqui, agora, bestial e danoso no mundo "civilizado" contemporâneo.

Contudo, a culpa pelo ponto ao qual a Humanidade chegou é de todo o Gênero Humano e não apenas de um determinado grupo social. Pobres ou ricos, convivendo de maneira trivial com a violência em todas as suas formas e faces em redor, cometem o mesmo tipo de violência contra si mesmos: a da autodestruição de sua verdadeira essência. A verdadeira essência humana não é a do homo violens. Aceitar o homo violens como apenas um câncer em sua essência é reconhecer em si a verdadeira essência humana. O câncer da violência, externamente, poderá ser vencido quando todos os seres humanos se autodeclararem violentos por ação de uma anomalia curável em suas naturezas. O câncer da violência, externamente, poderá ser vencido quando todos os seres humanos se indagarem acerca disto: por que sou violento em todas as minhas ações e reações diante do ocorrer das coisas do mundo que a mim afetam diretamente e do ocorrer das coisas que em mim mesmo produzo gerando toda a minha violência interior e exterior?

Fazer-se essa indagação e responder afirmativamente, definindo em si a violência é um sinal profundo de autenticidade. Recusar-se a essa indagação ou respondê-la negativament é típica atitude de inautenticidade, de falso situar-se em si mesmo e para o mundo em redor. Mas, mesmo inautêntico, cada ser humano, filosoficamente, é autêntico pois possui a característica de encontrar-se e situar-se existente em sua própria inautenticidade. Mas, o Homo violens não deixa de existir em parâmetro algum da essência humana, seja esta a de qualquer indivíduo que for consciente de seu existir e interagir e persistir e resistir neste mundo no qual se movimenta. O Homo violens não é uma quimera dada a falseamentos. O Homo violens não é fantasia de mentes paranóicas. O Homo violens encerra-se na consciência de todo ser humano. Mesmo que neguem ou ignorem tal verdade, o Homo violens é autenticamente produto do consciente humano, da personalidade humana, do comportamento humano.




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