Sobre O Estudo Do Ser, Do Nada E Do Homem Efetuado Por Jean-Paul Sartre Exposto Em Comentários Básicos - Parte III


Sobre O Estudo
-->
II Análise Fenomenológica Existencial Do Nada

Nada: não-existência de um algo, o qual os sentidos não consideram como possível e passível de um dia existir. O fenômeno do nada é uma negação do ser como se este não houvesse estado previamente constituído de um todo a identificar-lhe como ser em tudo no seu ser. Ontologicamente sendo considerado como objeto de preocupação filosófica desde os primórdios da Filosofia, o nada, o não-ser, é o não-movimento propiciado pelo não-existir. Houve, na análise do ser, o encontro com este ser, este ser que é o ser-Em-si. Surge agora o problema do não-ser, do não-ser-Em-si, do não-existir, no qual Sartre adentra na primeira parte de O Ser E O Nada, intitulada O Problema Do Nada. Um interrogar é visado: “Em toda interrogação ficamos ante o ser que interrogamos. Toda interrogação presume, pois, um ser que interroga e outro ao qual se interroga. Não é relação primitiva do homem com o ser-Em-si, mas, ao oposto, fica nos limites dessa relação e a pressupõe. Por outro lado, interrogamos o ser interrogado sobre alguma coisa. Esse sobre o que faz parte da transcendência do ser: interrogo o ser sobre suas maneiras de ser ou seu ser. Neste ponto de vista, a interrogação corresponde à espera: espero uma resposta do ser interrogado. Ou seja, sobre o fundo de uma familiaridade pré-interrogativa com o ser, espero uma maneira de seu ser ou maneira de ser. A resposta será sim ou não. A existência de duas possibilidades igualmente objetivas e contraditórias distingue por princípio a interrogação da afirmação ou negação”. Essa distinção é assim por princípio, mas com a necessidade de uma resposta afirmativa ou negativa, advém a possibilidade de ou aceitar o afirmativo ou não negar o negativo. A negação pode ser aceita e destruir-lhe a realidade “é o mesmo que fazer desvanecer a realidade da resposta”. Um não-ser, o não-ser, é possibilitado pelas negações e Sartre ergue esta questão: “se a negação, como estrutura da proposição judicativa, acha-se na origem do nada, ou, ao contrário, se é este nada, como estrutura do real, que fundamenta ou origina a negação”. Encontrar a proposta do ser da negação é encontrar a proposta do ser do nada.
A subjetividade gera o não-ser. “Seria portanto inútil contestar que a negação aparece sobre o fundo primitivo de uma relação entre o homem e o mundo; o mundo não revela seus não-seres a quem não os colocou previamente como possibilidades”. O homem é aquele que origina o não-ser e Sartre ainda revela analiticamente que a negação não é “somente qualidade do juízo”, mas um conjunto de relações entre aquele que interroga e o que é interrogado. “Uma relação do ser com o ser”, em vista do interior da “transcendência original” que os interliga, o que é proporcionado por uma “conduta judicativa”, que é a de conceder-se o direito de utilizar juízos. Na conduta não-judicativa, em sua maioria, melhor encontra-se “na sua pureza original essa compreensão imediata do não-ser sobre o fundo de ser”. Dentro dessas condutas tudo o que limita o ser em seu ser é nadificação, negação do seu ser. “O ser é considerado isso e, fora disso, nada”; quer dizer, dentro daquilo que indica-lhe que é um ser ele é e fora do que indica-lhe como seu ser ele não é. “Assim, a relação de limitação individualizadora que o homem mantém com um ser, sobre o fundo primeiro de sua relação com o ser, faz chegar a esse ser a fragilidade, enquanto aparição de uma possibilidade permanente de não-ser”. A estrutura da nadificação faz com que um indivíduo, quando identificado conscientemente com a objetividade que o rodeia, intuitivamente, transfira-se para o nada. Há o todo quando ocorre a plenitude de ser, instante indefinível no qual o indivíduo é o ser. Há o nada quando ocorre a identificação do indivíduo com os objetos específicos do ser, instante definidor da nadificação no qual o indivíduo é o nada.
Sartre abandona a “esfera da consciência” e aborda, para saber a origem do nada, uma dialética que a este possa definir. No dialogar ontológico com a problemática da nadificação, citando um trecho de Hegel em Fenomenologia Do Espírito, chega a identificar o que é pureza no ser e no nada: “Com efeito, não é o nada simples identidade consigo mesmo, completo vazio, ausência de determinações e conteúdo? O ser puro e o nada puro são, portanto, a mesma coisa. Ou melhor, são diferentes para dizer a verdade. Mas, ‘como a diferença ainda não está determinada, pois ser e não-ser constituem o momento imediato, essa diferença, tal como neles se acha, não poderia ser mencionada: é apenas um simples modo de pensar’”. Tudo, então, contém o ser e o nada, a possibilidade do é e a possibilidade do não é, a integridade do existir e a integridade do não-existir. Não há fragmentação entre um ser que é ser e um nada que é nada, pois ambos estão inerentes a tudo no mundo. Continuando a examinar o pensamento de Hegel, Sartre diz o seguinte: “Dir-se-á, que, para Hegel, toda determinação é negação. Mas o entendimento, neste sentido, se limita a negar a seu objeto ser outro que não si mesmo. Isso basta, sem dúvida, para impedir todo trâmite dialético, mas não deveria bastar para fazer desaparecer até o embrião do transcender. Na medida em que o ser se transcende em outra coisa, escapa às determinações do entendimento; mas, enquanto ele mesmo se transcende ― ou seja, é no mais profundo se si origem de seu próprio transcender ―, só pode, ao contrário, aparecer tal como é ao entendimento que o fixa em suas determinações próprias. Afirmar que o ser não é senão o que é seria ao menos deixar o ser intato, na medida em que ele é seu transcender”. E sendo desta maneira o seu próprio transcender, o ser é determinadamente seguro de ser o que é, isento de ser desvirtuado do seu ser por não transcender.
Examinando a oposição que Hegel diz existir entre o ser e o nada, “constituindo dois contrários cuja diferença, ao nível da abstração considerada, não passa de ‘simples modo de pensar’”, Sartre conclui: “O próprio Sócrates, com sua famosa frase ‘só sei que nada sei’, designa com esse nada precisamente a totalidade de ser considerada enquanto Verdade. Se, adotando por um instante o ponto de vista das cosmogonias ingênuas, perguntássemos o que ‘havia’ antes que existisse um mundo e respondêssemos ‘nada’, seríamos obrigados a reconhecer que esse ‘antes’, tanto como esse ‘nada’, teria efeito retroativo. Aquilo que negamos hoje, nós que estamos instalados no ser, é que houvesse ser antes deste ser. A negação emana aqui de uma consciência que remonta às suas origens. Se eliminássemos desse vazio original seu caráter de ser vazio deste mundo e de todo conjunto que houvesse tomado a forma de mundo, assim como também seu caráter de antes, que pressupõe um depois com relação ao qual eu o constituo como antes, então a própria negação desvanecer-se-ia, dando lugar a uma total indeterminação impossível de conceber, mesmo e sobretudo a título de nada. Assim, invertendo a fórmula de Spinoza, poderíamos dizer que toda negação é determinação. Significa que o ser é anterior ao nada e o fundamenta. Entenda-se isso não apenas no sentido de que o ser tem sobre o nada uma precedência lógica, mas também que o nada extrai concretamente do ser a sua eficácia. Expressávamos isso ao dizer que o nada invade o ser. Significa que o ser não tem qualquer necessidade do nada para se conceber, e que se pode examinar sua noção exaustivamente sem deparar com o menor vestígio do nada. Mas, ao contrário, o nada, que não é, só pode ter existência emprestada: é do ser que tira seu ser; seu nada de ser só se acha nos limites do ser, e a total desaparição do ser não constituiria o advento do reino do não-ser, mas, ao oposto, o concomitante desvanecimento do nada: não há não-ser salvo na superfície do ser”. E nesta superfície expande-se a relação do ser com a sua integral existencialidade antes do nada, a sua superlativa capacidade de ser existente antes de qualquer nada. Este existe porque o ser existe, porque o ser a ele empresta o seu existir, o seu encontrar-se como ser que exibe seu nítido existir. Encontrando-se como existente a partir do ser, o nada desaparece na coexistência com o ser que lhe anula quanto ao seu poder de a ele antepor-se existencialmente.
Não há oposição entre o ser e o nada, já que este existe por que o ser condiciona-lhe o existir. Há uma relação de convívio mútuo entre o ser e o nada, relação na qual o ser é ser e o nada é nada, apenas relacionando-se no existir. O nada é porque o seu ser é, não há o fim do ser para o nada haver existencialmente, o que seria um determinismo que não faria ser um ser. Nada existe fora do ser e o nada faz parte do ser como um ser proporcionado pelo ser. Sartre concebe, citando Heidegger e o Dasein, o nada como fenômeno, especificando-o: “O nada acha-se na origem do juízo negativo porque ele próprio é negação. Fundamenta a negação como ato porque porque é negação como ser. O nada não pode ser nada, a menos que se nadifique expressamente como nada do mundo, quer dizer, que, na sua nadificação, dirige-se expressamente a este mundo de modo a se constituir como negação do mundo. O nada carrega o ser em seu coração”. No nada encontra-se um ser que é o seu ser, o seu existir como nada, o seu ser como sendo um ser que o põe existente no mundo. Interiormente, o nada possui seu ser, um ser que o identifica como nada, o possibilita como ser-nada no sentido de estar presente no ser. Várias realidades possuem a negação, na qual a função de ser negação apenas é possibilitada porque “varia segundo a natureza do objeto considerado: todos os intermediários são possíveis entre realidades plenamente positivas (que, todavia, retêm a negação como condição de nitidez de seus contornos e aquilo que as mantém no que são) e realidades cuja positividade não passa de aparência a dissimular um buraco de nada”. Mas, neste buraco de nada, há sentido: “O nada ultramundano constata negação absoluta; mas acabamos de descobrir uma abundância de seres intramundanos que possuem tanta realidade e eficiência quanto outros seres, mas encerram em si o não-ser. Requerem explicação nos limites do real. O nada, não sustentado pelo ser, dissipa-se enquanto nada, e recaímos no ser. O nada não pode nadificar-se a não ser sobre um fundo de ser: se um nada pode existir, não é antes ou depois do ser, nem de modo geral, fora do ser, mas no bojo do ser, em seu coração como um verme”.
De onde vem o Nada?”, Sartre pergunta-se e inicia o analisar da Origem Do Nada. Há uma origem para o nadificar, o nadificar-se, a nadificação, o nada cujo ser é um ser. O nada tem uma origem e esta é o Ser, “o Ser pelo qual o Nada vem ao mundo deve ser seu próprio Nada”, encarrega-se Sartre de esclarecer. Ele analisa a consciência e, então, perspicazmente, encontra a origem verdadeira do Nada. Esta origem está no fato de que o ser pode e deve procurar a sua liberdade, porque além desta nada mais há. Dando o exemplo da angústia, tomado de Kierkegaard e ampliado, Sartre define essa liberdade: “existe uma consciência específica de liberdade e esta consciência é angústia. Buscamos estabelecer a angústia, em sua estrutura essencial, como consciência de liberdade”. O fato de ser o que não se quer ser revela uma angústia que leva o indivíduo a procurar ser o que ele não é, mas pretende ser. Essa angústia é negação, é o nada manifestado, indicativo de um aprisionamento em condições escravizantes do ser. E essa angústia, também, é liberdade porque fortalece o homem e o instiga a procurar aquilo que ele quer ser, aquilo que é antes de ser. O homem já é antes de ser e a liberdade de ser aquilo que já é exerce um poder que o faz ser expansivamente sincero em seu ser. “Convém sublinhar aqui que a liberdade manifestada pela angústia se caracteriza por uma obrigação perpetuamente renovada de refazer o Eu que designa o ser livre”. Refazendo o seu Eu, o ser livre é um ser que nada vem a impedir o progresso. “Na angústia, a liberdade se angustia diante de si porque nada a solicita ou obstrui jamais”. Para o mundo que o aguarda, assim livre, com nada a impedi-lo, nada a limitá-lo, nada a não torná-lo um nada absoluto, o homem pode realizar tudo o que lhe é obrigatoriamente exigido realizar. Sendo angústia, o homem é livre, livre a buscar ser aquilo que nada pode tornar não-ser. O homem, condenado a ser livre, é ser que nada impedirá de ser o que é.
Libertação das amarras é o que Sartre sugere para que o homem seja, motivado por uma esperança de positivo crescimento, o que nada impede-o de ser. O Nada foi desvendado.



0 Loucas Pedras Lançadas: