Sobre O Estudo Do Ser, Do Nada E Do Homem Efetuado Por Jean-Paul Sartre Exposto Em Comentários Básicos - Parte I


Sobre O Estudo
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Introdução


Há uma ciência que estuda o Ser enquanto ser, e seus atributos essenciais. Ela não se confunde com nenhuma das outras ciências chamadas particulares, pois nenhuma delas considera o Ser em geral, enquanto ser, mas, recortando uma parte do ser, somente desta parte estudam o atributo essencial; como procedem as ciências matemáticas. Mas já que procuramos os primeiros princípios e as causas mais elevadas, é evidente que existe, necessariamente, alguma realidade à qual tais princípios e causas pertencem, em virtude de sua própria natureza. Se, pois, os filósofos, que buscavam os seres, procurassem esses mesmos princípios, resultaria daí, necessariamente, que os elementos do Ser são elementos deste, não enquanto acidente, mas enquanto ser. Eis porque devemos estudar as causas primeiras do Ser enquanto ser”. Aristóteles (384-322 a.c.) assim definiu na Metafísica o que ele denominou prote philosophia, a Filosofia primeira, a que é necessária para formar todas as bases dos conhecimentos científicos. A Ontologia, ou Metafísica Geral, aqui encontra a sua melhor definição nas palavras acima expostas. O termo Ontologia não foi cunhado por Aristóteles, mas pelo filósofo alemão Johann Clauberg (1622-1665), o qual contribuiu para a difusão da filosofia de René Descartes (1596-1650) na Alemanha. A popularização do termo adveio das iniciativas de Christian von Wolff (1679-1754), discípulo de Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), que deste vulgarizou a doutrina. Racionalista moderado, Wolff pode ser visto, em parte, como um precursor de Immanuel Kant (1724-1804). Porém, este viria a modificar a noção que até o último quartel do século XVIII se tinha da Ontologia.
Anteriormente a Clauberg, Wolff e Kant, a Ontologia, desenvolvendo-se na cultura grega, passando à cultura greco-romana e situando-se na Teologia, do Cristianismo já oficializado, tornou-se mera serva do desenvolvimento de muitos dogmas deste. Assim como toda a Filosofia em geral ela adequou-se à Escolástica, cujas raízes remontam a Santo Agostinho de Hipona (354-430) e Anicius Manilius Torquatus Severinus Boëtius (470-524). Sendo uma corrente de diversas opiniões e visões, a Escolástica estendeu-se do século XI ao XIX com diversas intensidades de expressão nos meios teológico e filosófico, encontrando ainda no século XX alguns de seus últimos seguidores, os chamados neo-escolásticos. O século XIII foi o período áureo desse sistema de pensamento, destacando-se a influência total de Aristóteles no método especulativo de estudo, dedutivo, advindo da Lógica desenvolvida pelo filósofo grego fundada na argumentação silogística. O pensamento escolástico foi codificado realmente por Santo Anselmo (1107-1178) no século XII com a prova ontológica da existência de Deus: a própria palavra Deus indica um ser perfeito, acima de tudo, maior do que tudo; caso Deus não existisse, seria preciso supor um algo maior existente realmente porque existir é uma das perfeições; então, a simples palavra Deus indica que Este é um Ser realmente existente. Na mesma denominada Idade Média, a Teologia separou-se da Ontologia porque o chamado Ato Puro, transcendente, ontologicamente percrustado, não alcança a transcendência do ser infinito, um tema fundamental da primeira já àquela época. Servindo então a propósitos afastados do interesse religioso, o examinar ontológico continuou a falar do divino porque este é o termo da ciência filosófica, o fim por esta a ser alcançado, não dado como objeto a ser analisado como na Teologia, mas conquistado no decorrer do caminho epistemológico.
Desde o cunho de Clauberg e a popularização efetuada por Wolff, ambos no século XVII, a Ontologia foi sendo utilizada para opor-se a toda ciência do particular e enfatizou-se demasiadamente o seu caráter primário. Sendo identificada com a Metafísica como Metafísica Geral, confundindo-se nas funções epistemológicas com aquela, o que a distanciava de uma Metafísica chamada Metafísica Especial, foi moldada essencialmente, pelos estudiosos que propunham-se a continuarem a assim defini-la, como a causa de uma divisão na ciência metafísica. Em 1781 a publicação da primeira edição de Crítica Da Razão Pura veio a edificar uma visão da Ontologia que até hoje melhor a identifica, não tanto envolvida com a Metafísica. Em sua obra Kant afirmou que conhecemos sensivelmente os fenômenos e não temos nenhuma experiência sensível do noumeno, objeto inteligível que livre das ilusões dos sentidos seria a coisa-em-si ou a realidade absoluta. Como o noumeno não pode ser sensivelmente intuído, Kant propôs uma dialética transcendental e através desta, a Ontologia, como ciência do noumeno, adquiriu um significado mais apropriado. Ela passou a estudar o que permanece oculto nos fenômenos, tudo o que nestes, percebidos sensivelmente, não é desvelado pelas ciências particulares. “Ser evidentemente não é um predicado real, isto é, um conceito de qualquer coisa que possa ser acrescido ao conceito de outra coisa. É simplesmente a posição de uma coisa, ou de certas determinações em si mesmas. No uso lógico, é unicamente a cópula de um juízo”. Kant assim separa o Ser da sua condição de generalidade inerente a uma condição que sirva para todos os seres, indicando que antes da Ontologia ser fundamentada como “ciência primeira”, a mesma deveria ser explorada em todos os seus fundamentos do que é possível conhecer. Todo este possível conhecer antecede a crítica da razão e é por esta melhor considerado por estar aplainado em construção excepcionalmente segura. A Ontologia passou a dividir-se em dois ramos de estudo: o estudo do ontológico, referente ao ser em geral, ao ser descoberto, intellectum in actu; e o estudo do ôntico, referente ao ente, visto determinado como fato de ser, intelligibile in potentia.
Ciência de penetração profunda na concreta intimidade do ser, a Ontologia recebeu novo rumo sob a égide de Edmund Husserl (1859-1938). Considerando-a como ciência das essências, ou Fenomenologia pura, Husserl dividiu-a em duas partes: a formal, que trata das essências formais concernentes a todas as demais; e a material, que trata das essências materiais e particulares que originam outras ontologias denominadas ontologias regionais. Sendo a ontologia formal o fundamento de todas as ciências e a ontologia material das ciências de fato, a primeira é soberana sobre esta. Husserl enfatiza o fenomenológico dizendo em A Filosofia Como Ciência De Rigor (1911) que “é precisamente próprio da Filosofia, desde que remonte às suas origens extremas, o seu trabalho científico situar-se em esferas de intuição direta, e constitui o maior passo a dar pela nossa época, reconhecer-se que a intuição filosófica no sentido autêntico, a percepção fenomenológica do Ser, abre um campo imenso de trabalho e leva a uma ciência que, sem todos os métodos indicativos simbolizantes e matematizantes, sem o aparelho das conclusões e provas, não deixa de chegar a amplas intelecções das mais rigorosas e decisivas para toda a Filosofia ulterior”. Na percepção fenomenológica do Ser, do que este como observável apresenta ao que concretamente demonstra objetivamente, encontra-se a autenticidade de um investigar científico ontológico de valor irrefutável. A influência do pensamento filosófico husserliano foi mais aparente em dois filósofos impositores de visões ainda mais avançadas para a Ontologia. Husserl influenciou-os, mas estes destacaram-se daquele por realçarem em suas doutrinas o conteúdo dos conhecimentos da Metafísica Existencial.
Martin Heidegger (1889-1976), o primeiro dos grandes contribuintes para o evoluir da Ontologia no século XX, considerou como pergunta fundamental da ciência ontológica existencial esta: por que, em suma, há o existente em vez do Nada? “A palavra ‘ser’ é, portanto, indeterminada em sua significação, e, contudo, a compreendemos de uma maneira determinada. ‘Ser’ revela-se como um plenamente-determinado-eminentemente-determinado. Segundo a lógica ordinária, há, aqui, uma contradição manifesta. Ora, alguma coisa que se contradiz não pode ser. Não há o círculo quadrado. E, contudo, há essa contradição: o ser concebido como plenamente indeterminado, que é determinado”. Bastando determinar o que é o Ser e o que é o Nada, aquilo que é existente e aquilo que não é existente, Heidegger fundou a Ontologia que visa à meditação do homem diante da mutabilidade de todas as coisas perceptíveis ao seu olhar que tudo pode perceber ao seu alcance, da finitude existencial de cada coisa materialmente constituída, do devir mutável inescapável que transforma toda a realidade objetiva em redor de sua subjetividade.
Examinando o ser ontica e ontologicamente em sua obra Ser E Tempo (1927), Heidegger definiu as quatro posições de manifestação daquele objetivamente: ser e devir, ser e aparecer, ser e pensar, ser e dever. Do Dasein ao In-der-welt-zein, o ser presente nessas quatro posições manifestantes de si mesmo encontra-se imanentemente relacionado à fenomenalidade que constitui o mundo objetivo em todos os seus modos existenciais. Estando no mundo, o homem é, o ser é, o ser existe e o não-ser encontra-se fora da ex-istência. Jean-Paul Sartre (1905-1980), o segundo influenciado por Husserl aqui considerado, e mais ainda pelo existencialismo de Heidegger ao qual reformou em sua obra capital, e a mais importante de todas entre a sua rica bibliografia, O Ser E O Nada (1943), destacou-se poderosamente genial dentre os investigadores ontológicos ampliando o exame existencial do que é verdadeiramente o Ser, do que não é verdadeiramente o Ser, do que é verdadeiramente o Nada e do que não é verdadeiramente o Nada.
Todo o percurso até aqui desta introdução, traçando um resumo histórico da Ontologia até Sartre, foi necessário para que a grande importância deste como filósofo e escritor a sempre indagar-se acerca dos problemas existenciais, ainda atualmente forte quando estuda-se a sua filosofia existencialista, fosse a partir daqui evidenciada. A Ontologia teve as contribuições dos anteriormente citados filósofos nesta introdução, de três das maiores tradições filosóficas do denominado mundo ocidental, que são a grega, a francesa e a alemã. Houveram outras contribuições além das que foram destacadas aqui; no entanto, nenhuma delas influenciou toda uma geração de intelectuais, ou simples admiradores de uma literatura de qualidade, como a de Sartre. Na filosofia deste foi definida que “a essência precede a existência”, que em termos esclarecedores diz que a personalidade do indivíduo humano não é a determinadora implacável do seu destino, o qual é livremente construído. Desta premissa advém a conclusão de que não há uma “natureza humana”, universal e definitivamente moldada nativamente, mas sim uma confluência de objetivos centrada em um projeto existencial pelo próprio indivíduo humano, conforme o seu situar-se no mundo, sua posição circunstancial histórica. Sendo o homem aderente ao seu projeto o único agente determinador do seu iniciar e findar no mundo, fica livre de toda e qualquer obrigação para com um Absoluto no qual seria aprisionado em toda a sua vontade de agir. Sem um Absoluto a ditar a sua existência, o homem é livre: esta é a face sintética do existencialismo ateu inaugurado por Sartre, o qual negando a existência de um Deus limitador da liberdade humana afasta-se dos seus precursores em Ontologia que esforçaram-se em provar o contrário. Precursores esses como Aristóteles, Santo Anselmo e Descartes, apenas citando os exemplos maiores dos “provadores da existência de Deus”. Sem este, para Sartre o homem seria apenas limitado pelas próprias situações que criaria para si mesmo e em sua obrigações para com os outros. O ateísmo criticista, representado majoritariamente por Sartre, teve a sua origem a partir da crítica de Kant ao argumento ontológico da existência de Deus efetuada na Crítica Da Razão Pura.
O ser humano é para si mesmo e nada o vincula ou ata a uma essência divina de existência duvidosa, este é o resumo do pensamento existencialista ateu do filósofo francês. A identificação do Ser e do Nada revela ao ente pensante como ser pensante o que deve constituir de essencial para o seu evoluir. Se o ateísmo sartreano teve uma origem no Ser dele, tal origem encontra-se no estudo inserido em O Ser E O Nada inicialmente, vindo a ser nítido no todo da produção literária por aquele guiada. Negando um Ente Absoluto, o Ente Absoluto que a parcela religiosa da Humanidade denomina como Deus, o filósofo da tradição filosófica francesa abordou a existencialidade do Ser em seus sentidos substancial, fenomenal e objetivo. Chegando ao Nada, ele afasta-se de Heidegger: este considera a experiência do Nada como realizada na angústia; Sartre identifica tal experiência com a liberdade, levemente acima citada como uma parte do pensamento deste, pela qual o indivíduo renuncia àquilo que é para alcançar algo que não é, mas que está latente em si. Ontologia existencial e existencialismo ateu estão, assim, mais do que ligados no pensamento sartreano, sem as dúvidas que ocasionalmente contradizem as doutrinas de filósofos igualmente importantes para a tradição filosófica ocidental. Curiosamente, Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855), filósofo da tradição filosófica dinamarquesa, que também foi escritor como Sartre, e teólogo, juntamente com Husserl e Heidegger exerceu influência sobre este. Kierkegaard polemiza ao propor que “a vontade antecede o conhecimento” (contrapondo-se a Kant); e ao resumir a afirmação de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) de que “Deus é a vontade enclausurada nos limites reduzidos da experiência humana”, o que vem a justificar a impossibilidade de provar-lhe a existência e com o mesmo identificar-se. O filósofo dinamarquês até conclui que toda tentativa de provar citada existência chega a ser um sacrilégio, canonicamente considerado. Estimado como o pai do existencialismo moderno, Kierkegaard pode ser visto como curiosa influência sobre Sartre porque amparou o seu pensamento filosófico em argumentos teológicos, enquanto que o filósofo francês amparou o dele em argumentos ateísticos. Cabe observar, porém, que no convencionalmente chamado ateísmo pode haver muitas verdades que o não-ateísmo, principalmente o dos “provadores da existência de Deus”, procura não adentrar por causa da falta de melhores argumentos nos quais amparar-se para o continuar de seu investigar. Sartre, ateu por acreditar no homem acima de qualquer império divino que o submeta a reles joguete da existência, modelou as suas verdades muito melhor do que algumas supostas verdades de pensamentos contrários aos seus.
No todo, somando as influências recebidas, o autor de O Ser E O Nada pôde bem construir a sua própria doutrina, eliminando necessariamente tudo aquilo que existencialmente não acomodava-se ao seu modo de pensar. Os comentários básicos a seguir exporão as características do pensamento sartreano em três análises fenomenológicas existenciais que contribuem para a constituição do seu humanismo: a do Ser, a do Nada e a do existencialismo ateu. Sartre foi o analista fenomenológico existencial da fenomenalidade dirigente da captação dos reais elementos constituintes do Ser, do Nada e do homem como Homem. Analista existencial pleno de descobrir o que é o Ser, o que não é o Ser; o que é o Nada, o que não é o Nada; o que é a consciência de si, o que não é a consciência de si; o que é a existência humana, o que não é a existência humana; o que é viver no mundo, o que não é viver no mundo; o que é ser o Homem e o que não é ser o Homem. Sartre foi um analista de análises que revolucionaram a Ontologia e, conseqüentemente, a Filosofia.
Links:

Jean-Paul Sartre - Biography

Aristotle

Johann Clauberg (German philosopher and theologian) -- Britannica

René Descartes | Philosopher

Christian Wolff

The Philosophy of Gottfried Wilhelm von Leibniz

Immanuel Kant -- Metaphysics [Internet Encyclopedia of Philosophy]

OSA - VIDA DE SANTO AGOSTINHO

Anicius Manlius Severinus Boethius - Hutchinson encyclopedia

MÉTODO DE SANTO ANSELMO EM SEU MONOLÓGIUM

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (Stanford Encyclopedia of Philosophy)




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