Sobre Uma Tradição Filosófica Brasileira








Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais.

O que seria a Filosofia Brasileira? Temos uma tradição filosófica seguramente centrada no mover perfeito do pensamento intelectivo em direção a uma filosofia? O brasileiro, tão centrado na tríade burlesca samba, cerveja e futebol, é capaz de pensar filosoficamente? Acredito que sim, já que até no próprio caráter burlesco do samba, da cerveja e do carnaval possa haver uma observação de algumas facetas do caráter humano, de como este interage com a fenomenalidade circuncidante. Geralmente, os estrangeiros que visitam ou residem no Brasil acham que os brasileiros permanecem em uma eterna festa durante trezentos e sessenta e cinco dias, ou sessenta e seis (se o ano for bissexto), um eterno carnaval, uma eterna micareta. Para os estrangeiros que assim pensam, os brasileiros são mais doados ao viver insensato dos prazeres do que aos prazeres do viver moderado onde haja um sentido em cada ato objetivo e subjetivo. Logicamente, no inconsciente coletivo dos estrangeiros deve reinar igualmente a suposição de que no Brasil não há espaço para os pensamentos mais profundos que caracterizam todo espírito superior ou caminhante para o estado de superioridade acima da massa humana comum: os pensamentos filosóficos. A mídia é a grande culpada dessa imagem errônea do brasileiro, pois faz com que a visão deste no exterior centralize-se apenas nas características acima mencionadas. Se todo homem tem em si a capacidade flamejante do filosofar, potencialidade flamejante maior do espírito, a chama do saber, a chama do conhecer, a chama do investigar, logicamente um brasileiro, membro da Humanidade tanto quanto um membro de uma nação altamente rica em tradição filosófica, também a possui. O sambista pode ser um filósofo, se o quiser, se o seu interesse a isso levá-lo. O apreciador de cerveja pode ser um filósofo, se nos momentos de sobriedade consegue organizar o seu pensamento com seguridade. O jogador ou o apreciador do futebol podem ser filósofos, basta saberem dosar o interesse pelas distrações futebolísticas e um interesse sincero pela Filosofia.




O mito de que o brasileiro seja capacitado a ser um desprovido da mais alta inteligência deve cair. O mito de que uma Filosofia Brasileira, uma tradição filosófica brasileira, deve basear-se nas tradições “tupiniquins” deve cair. A Filosofia, inspirando toda digna filosofia, pertence a todo o globo, é um tesouro alto da civilização humana, do Pensamento Humano. Nacionalismo paranóico, excessivo, intensivo, deteriora toda uma filosofia, deteriora toda a Filosofia. Não se pode jamais pensar como Roberto Gomes (1944- ) em sua obra Crítica Da Razão Tupiniquim (1977) quando diz o seguinte: “Aprendamos duas coisas. Que nesta altura dos acontecimentos, um soco na mesa, violento e sonoro, é mais importante do que sabermos da validade dos juízos sintéticos a priori. E que, do ponto de vista de um pensar brasileiro, Noel Rosa tem mais a nos ensinar do que o senhor Immanuel Kant, uma vez que a filosofia, como o samba, não se aprende no colégio”. Em resposta a tão “sábio” pensamento Jorge Jaime responde no primeiro volume de História Da Filosofia No Brasil:



Esse excesso de brasileirismo não nos levará a nada no campo da Filosofia. Foi gasta uma verba nacional, dinheiro sofrido do povo, para uma co-edição com a editora Movimento, numa tese filosófica que afirma ser mais importante Noel Rosa do que o fundador do criticismo! Se não é uma piada, é uma brincadeira de mau gosto. Não quero dizer que o livro de Roberto Gomes não seja interessante, não apresente a sua originalidade, não seja bem escrito, não revele conhecimentos sólidos das fontes em que foi saciar sua sede de nacionalismo; mas o que acontece é que Filosofia é coisa bem mais séria e muito mais profunda, pois é um transcender sobre os imortais problemas filosóficos. Ela, como as religiões, coloca-se muito acima dos limitados nacionalismos. E, normalmente, é aprendida nos colégios, nas universidades”



E é o próprio aprender da Filosofia nos colégios e nas universidades que fundamenta no estudante entre as diferenças existentes entre admirar um grande filósofo alemão como Immanuel Kant e um grande sambista como Noel Rosa sabendo vê-los como dois dos maiores contribuintes do enriquecimento do Pensamento Humano. Jorge Jaime desmereceu um pouco Noel Rosa; não era para assim fazer, pois provavelmente, sabendo examinar as belas letras das músicas do sambista maior de Vila Isabel, ele concluiria como concluo que a herança de tudo feito em todos os ramos que vise ao pensar possui o seu cunho filosófico inconscientemente. O samba não é apenas carnaval ou um ritmo que desperta sentimentos primitivos quando executado; o samba possui a sua riqueza tanto como o criticismo de Kant ou o sistema de qualquer outro filósofo, atuando onde exerce influência. Noel Rosa e Immanuel Kant são tesouros da Humanidade, sendo que não é também sábio desmerecer tanto o primeiro quanto o segundo. Desmerecer Immanuel Kant para exaltar Noel Rosa é demonstrar ódio xenofóbico contra aquele filósofo alemão. Desmerecer Noel Rosa para exaltar Immanuel Kant é demonstrar um desprezo pelo sambista brasileiro. Não se mede a grandiosidade de obras heterogêneas de dois criadores diversificados em seus âmbitos de criação como se estivesse fazendo-se uma conta de algébrica simples para chegar-se a um resultado simplório. Criticar exige imparcialidade, algo que tanto Roberto Gomes como Jorge Jaime não tiveram, talvez levados pelos seus sentimentos no momento de escreverem as passagens citadas de seus respectivos livros. Uma tradição filosófica não se visualiza no desmerecimento de outra ou do de um realizador fora da Filosofia, por mais criticável que este realizador ou aquela tradição possam ser objetivamente. Para o pensamento brasileiro as duas atitudes são desnecessárias, são exageros descartáveis, nulidades maiores. Jorge Jaime critica o nacionalismo de Roberto Gomes, porém, age como um não muito admirador da obra de Noel Rosa com um escárnio e deboche estranhos a qualquer fundamentação do que seja uma tradição filosófica brasileira. Em tudo pode-se inserir a Filosofia como fundamentação para análises profundas de um objeto que não lhe pertença exclusivamente, como o samba. O samba pode filosofar não possuindo inteiramente o sentido de querer filosofar. Os dois atos são naturais e não meros sofismas, isentos de todo escárnio, isentos de todo deboche, isentos de todo ódio xenofóbico.



Citando as palavras do próprio Roberto Gomes em seu supracitado livro, podemos destacar algumas para uma análise crítica precisa do erro da exacerbação nacionalista dada à fundamentação prática de uma tradição filosófica brasileira, de uma Filosofia Brasileira. Este trecho sugere um ponto de partida para um determinado formar de um pensamento brasileiro definitivo:



A questão de um pensamento brasileiro deverá brotar de uma realidade brasileira ― não do ‘pensamento’ e da ‘realidade’ oficiais. Deve inventar seus temas, ritmo, linguagem. E inventar seus pontos de vista. Obras como as de Mário de Andrade, Machado de Assis, Lima Barreto, Sérgio Buarque de Holanda, Noel, Chico Buarque, além daquilo que se tem feito no campo das ciências humanas nos últimos anos, tem mais a nos dizer do que as maçantes teses universitárias nas quais a Filosofia se mascara no Brasil”



Inventar algo nem sempre é ser belamente original e, às vezes, infelizmente para os que gostam do revolucionar em tudo, uma tradição que verse sobre coisas antigas, devidamente seguida, pode apresentar-se em seu corpus intellectus imensamente rica. As “maçantes teses universitárias” são caminhos do entendimento de tradições filosóficas altamente ricas, que não devem ser desmerecidas apenas porque se pensa que o efeito delas nas universidades “prejudica” a formação de um pensamento brasileiro. E, o que é mais propenso a uma pesada crítica no trecho citado, é a mistura do Modernismo, Pós-Modernismo, Samba e Música Popular Brasileira em um condensado estranho patamar como se fossem de uma homogeneidade incontestável. Incluir ainda as obras das ciências humanas no Brasil a tudo complica, anulando toda a teoria mesma de um pensamento filosófico brasileiro, o qual deve ter em conta para o investigar a heterogeneidade e não a compilação tresloucada proposta por Roberto Gomes. Deve-se investigar metodicamente o que o Modernismo diz e não diz; o que o Pós-Modernismo diz e não diz; o que o Samba diz e não diz; o que a Música Popular diz e não diz; o que as ciências humanas dizem e não dizem. Homogeneizar não é uma atitude filosófica e implausivelmente se poderia chamar de tradição filosófica uma que consentisse em fundir tudo em um único ramo de possibilidades de investigação. Filosofia é heterogeneidade no investigar seu que é incansável e o Brasil, país de ricas heterogeneidades, é uma grande base para o realizar desta visão que não busca unificar para desconhecer, mas dividir para conhecer.



Quer dizer: não consentir que as coisas sejam indigestas, nem escondidas, ou amontoadas na confusão de um acervo, mas descobri-las e manifestá-las com diferença e distinção de nomes, e pôr cada uma delas em seu próprio lugar, tal obra como esta é de ânimo verdadeiramente divino”




Antônio Vieira (1608-1697) esclarece nesse trecho do Sermão De Nossa Senhora Do Rosário o que verdadeiramente constitui um grande dever de rigorosa organização, dever que garantiria o mais respeitoso método de elaboração do que uma tradição filosófica se encarregaria de investigar. Para que se possa pensar em uma filosofia, Filosofia Brasileira, tradição filosófica brasileira, que ordene o estudo aprimorado da realidade brasileira, o dever de uma rigorosa organização necessita ser a premissa indispensável de tal empresa. Apenas a afobação, apenas o entusiasmo, apenas uma sutil ou pesada xenofobia, não levariam a um caminho verdadeiro a realização do saber o que é o investigar filosófico brasileiro modelado para o observar da realidade brasileira e, conseqüentemente, do mundo. Os estrangeirismos, todos os tipos de estrangeirismos, negativizam-se quando exaltados como supremos condutores dos modos do pensar do país no qual são inseridos; os estrangeirismos, todos os tipos de estrangeirismos, positivizam-se quando alocados para uma utilização que sirva para o desenvolvimento do pensar de um país. Não se pode jamais ser tão radical como Roberto Gomes, que pareceu não ter visualizado realisticamente o que de positivo pode haver nos estrangeirismos, ao afirmar com uma certa revolta:



Aguardamos uma solução estrangeira sem nos darmos conta de que, sendo estrangeira será precisamente isto: estranha. E o pensamento, antes da pretensão de ser atemporal, deve ter a pretensão primeira de não ser jamais estranho, o saber de um outro”




Então, o único saber, o saber ideal, o saber real, deve ser unicamente o de um centro intelectivo apenas que rejeite os demais centros como perigosos para a sua insistência em exprimir-se e expandir-se? Se um estrangeirismo é bem compreendido, bem incorporado, à mentalidade brasileira, como o foi o estrangeirismo filosófico que a esta foi adaptada, ele é estranho, culpado do crime imenso, do crime mais bárbaro, de unicamente ter incentivado o poder do verdadeiramente pensar verdadeiramente?




Roberto Gomes cai em contradição com o seu próprio pensamento ao afirmar mais adiante o seguinte:



De fato, a ‘herança filosófica’ que nos deixou Portugal não foi das mais ricas. Acontece que ‘herança filosófica’ é coisa que não existe. Não se herda uma filosofia, cumpre apropriar-se dela, fazendo-a nossa. O pensamento alemão, por exemplo, não ‘herdou’ passado algum; apropriou-se de um passado filosófico”



A Filosofia Portuguesa, a tradição filosófica portuguesa, apesar da identidade proporcionada pelo idioma em comum compartilhado, é um estrangeirismo no Brasil que, pelas próprias palavras de Roberto Gomes, negativizou-se. Ele diz que a Alemanha apropriou-se do seu passado filosófico, o seu próprio passado filosófico; apropriar-se do passado filosófico brasileiro, moldado pelo pensamento filosófico português, um estrangeirismo, conforme o pensamento de Roberto Gomes, não prejudicaria um pensar filosófico brasileiro dentro da realidade brasileira? O não de uma realidade brasileira visualizada filosoficamente conforme tal apropriar-se de uma tradição filosófica estrangeira seria o esmagador de toda tentativa de salientar-se a legitimidade do pensar filosófico brasileiro. Não há herança ou apropriação de pensamento filosófico; o que há é uma evolução, uma gradualmente lenta evolução elevante da natureza do pensamento de uma nação. Um suicídio intelectivo seria o apoderar-se de um passado filosófico ou de uma tradição filosófica para equipar-se poderosamente o fundamentar exato de uma outra tradição, a qual deve crescer pelos seus próprios meios realizadores de caminhos reais para a sua ininterrupta evolução. O Brasil, o Brasil em si mesmo, pelo que demonstra de criativo e original em diversos ramos, possui em muitos dos seus habitantes aquela potencialidade filosófica flamejante citada no início deste texto. Uma potencialidade filosófica flamejante que apenas uma racional e séria divulgação de toda a Filosofia faria realizadamente objetiva, plenamente possuidora da capacidade de seguir em uma evolução digna. Os brasileiros não são inferiores em matéria de pensamento, jamais o serão mesmo que a aparência do modo de vida no Brasil pareça aos estrangeiros indolente e despreocupado com os objetivos maiores da realidade, do eterno movimento verdadeiro das coisas objetivamente dadas aos sentidos, à razão e ao intelecto. O filosofar verdadeiramente é uma capacidade inata que, indistintamente, está inserida em todo espírito humano como chama em potencial, digo-o novamente. Por que os brasileiros não a possuiriam?


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais.





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UMA FILOSOFIA BRASILEIRA | Consciência


Crítica | A Filosofia Brasileira Contemporânea


O Brasil tem filósofo


MIGUEL REALE E A FILOSOFIA BRASILEIRA


Programa LOGOFONIA » Filosofia no Brasil: Paulo Margutti


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