Leonards Diários Do Contemporâneo Lembrar Do Nada Que Somos


Inomináveis Saudações a todos.

Amnésia (Memento, 2000) que prova que o cinema de Hollywood ainda tem salvação, é um filme espetacular. Amnésia é um espetáculo no roteiro, na direção, na fotografia e nas interpretações, destacando, claro, a de Guy Pearce, a interpretar Leonard Shelby, o personagem principal. Revelando grande talento e fielmente dando existência plena a um homem perdido em si mesmo, Pearce encanta no desenvolvimento de um personagem inesquecível que, talvez, o faça ser lembrado futuramente como o melhor que interpretou em sua carreira.

O diretor Christopher Nolan, que baseou o roteiro do filme a partir de um livro escrito por seu irmão, Jonathan Nolan, fez de Leonard, tratado com veracidade em sua autoperdição por Pearce, um emblema do Homem Contemporâneo. Este que, perdido em um mundo quase feliz, o seu mundo, criado em sua mente, descobre-se um infeliz que tenta criar a totalidade, impossível, de um mundo feliz. A felicidade verdadeira, no entanto, depende de reter em sua essência a totalidade de todas as boas e más lembranças como forma de aprendizado crescente no caminho escolhido para trilhar-se. Alguns poucos tornam a totalidade de suas lembranças uma força indestrutível que os incentiva ao crescimento interior. Mas muitos, muitos e muitos agem como Leonard, mesmo sem possuírem a doença deste, exaltando o seu passado e esquecendo que os momentos presentes são os mais importantes.

Antes de continuar, lembremos da temática do filme. Leonard tem a sua esposa estuprada e assassinada em sua própria casa. Leonard luta com o assassino e é golpeado no crânio, passando então, após isso, a possuir uma doença rara, que o leva a esquecer de fatos acontecidos recentemente e somente lembrar-se de fatos ocorridos em seu passado. A única forma dele lembrar-se das pessoas que conhece é tirando fotos das mesmas e dos lugares que conheceu, tatuando também o corpo com o mesmo objetivo. Ele sai em busca, então, do assassino de sua esposa e... Bem, paro aqui, para aqueles que não assistiram ainda ao filme não se aborrecerem. O filme é desenvolvido na forma de uma narrativa original, sendo que o seu início é o final; quer dizer, ele é contado de trás para a frente, exigindo do espectador tamanha atenção em cada pormenor que indica a idéia presente nele. A idéia que pude captar está sendo aqui desenvolvida e se trata mais de uma análise do que uma crítica. Análise que relaciono com problemas existenciais que nele são enfatizados.

Muito do que Leonard imagina como real revela-se, com o decorrer do filme, mera fantasia. Alguma vez em suas existências, os seres humanos foram natural ou artificialmente cópias de Leonard. Já nos esgueiramos, alguma vez em nossas existências, em fantasias mentais que agiram como fragmentadoras de nosso ser. Como Leonard, sem continuidade e consistência, permanência e direção, nos conduzimos através de uma estrada de retalhos, retalhos e retalhos... Como Leonard, até quando somos mais fortes com o passar dos anos, nos deixamos afetar pelo passado, no que este possui de bom e de mau... Como Leonard, esquecemos dos momentos atuais e fantasiamos, fugimos da realidade, quando a fraqueza dá leves sinais de seu ressurgimento em nosso íntimo ferido, ferido, ferido... Como Leonard, buscamos um John G. (o nome do estuprador e assassino de sua esposa) para pormos as culpas de todas as nossas dores, amarguras, sofrimentos, desgraças e finais de sonhos ou objetivos...

Somos Leonard quando caídos na sensação sufocante e perturbadora de que estamos perdidos em uma dura realidade, quando choramos, quando meditamos sobre as verdades de nossas situações existenciais. Não há felicidade total: este é o máximo conceito do conteúdo de Amnésia. Leonard é aquele lado de nossa personalidade e comportamento que sempre procuramos negar, uma entidade que vive e sobrevive de fragmentos de memórias próximos de situações atuais vividas que são logo esquecidas se muito cruéis conosco; e que venera fragmentos de memória distantes, de um tempo feliz, o qual, na verdade, não passa de um momento efêmero.

Fragmentos são os nossos Eus, pois queremos, queremos, queremos e queremos totalidade em uma senda de inteira felicidade, mas passamos apenas de fragmentos que inteiramente reunidos em total felicidade não podem ser... Amnésia fala acerca desses fragmentos que negamos, que muitos no mundo são constantemente infelizes, buscando um livro entre os momentos vividos onde todas as respostas estejam inseridas para todas as perguntas. Amnésia é um filme melancólico e triste, de uma forma sublime, demonstrando que nada permanece no ser humano além das lágrima e do vazio de sua existência a não aceitar que não há felicidade total.

"Todos precisam de espelhos para se lembrarem de quem são", meditação de Leonard ao final do filme. Espelhos que se quebram, pois a humana lei do existir é quebrável. Amnésia não é uma ficção no sentido de que fala da realidade humana quebrantável. Obra-prima para todo colecionador de preciosidades cinematográficas. Inesquecível para quem sabe que, interior e ocultamente, mesmo sendo forte, é um Leonard. Esquecível para os que acham que tudo é belo na existência, que ao assistirem Amnésia acham Leonard apenas um louco. Louco é aquele que diz ser totalmente feliz. Louco é aquele que aceita como ideais os fragmentos do seu existir. Louco é aquele que pensa ser indestrutível, inquebrável, o seu espelho. Lúcido, são, é o que aceita e compreende a infelicidade em redor, não vendo felicidade total em nenhum recanto do mundo, não sofrendo de nenhum tipo de amnésia que da infelicidade o faça esquecer.

Saudações Inomináveis a todos.


Data: Em Algum Lugar Do Passado...


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