Caim, Sagrados Laços Frouxos - Márcia Denser


Por que perseguia Caim?, perguntava-se Júlia, por que perseguia este sonoro nome derrotado? ouvia-se perguntando como de longe, abrindo caminho por entre incontáveis barreiras, avançando em meio a um dédalo de emoções inúteis, até perguntar-se implacavelmente e por escrito: Por que perseguia Caim? arremessando a pergunta contra o papel e cravando-o em si própria. Porque não se tratava de perguntar ou responder, nem remetente nem destinatário, nem sacrificante nem sacrificado, mas se tornar ela própria o sacrifício, a palavra redentora que já não perguntava nem respondia, que se consumava. Mas isto não é meu corpo, isto não é meu sangue, posto que sombra, não tenho posteridade, o que se multiplica é minha iniqüidade. O meu nome, a minha assinatura é uma sentença de morte, a minha sepultura, a minha lápide, a minha cruz.

pag. 11



Inomináveis Saudações a todos.

Mais do que, simplesmente, um livro de "reencontro com as raízes familiares", Caim, de Márcia Denser, é uma densa e aprofundante análise do processo monstruoso de engrandecimentos, sufocamentos e transições interiores do ser humano. Fugindo infinitamente da mesmice e do lugar-comum, a construção da prosa segue o ritmo de uma lancinante locomotiva a correr por um trilho que leva ao atropelar de todas as construções e desconstruções. No sentido das construções, nos envolvemos com as vulcânicas apreciações de relacionamentos sufocantes e sufocados, errôneos e erráticos, da família de Júlia e Amanda, as duas personagens, irmãs, o eixo central polarizante e consistentemente emanador de toda a trama descrita no livro em seu formato essencial. No sentido das desconstruções, nos vemos envolvidos nas brutais encenações de buscas e buscas ideais de um sentido estitamente reabilitante e reabilitador do viver humano, uma ode ao império das sensações que devem permanecer e não do permanecer insosso dos momentos fugazes dados aos nossos psíquicos momentos de encontro conosco mesmos.


Ao não tornar o livro senhor de uma narrativa medíocre, mesquinha e tola, Denser nos conduz ao extremos receituário de banquetes psicológicos, filosóficos, religiosos e, até, humanistas, de um livro que é para ser lido de uma vez só, sem intervalos, pois o atrativo elemento de sua alma é uma contagiante e sensual, contaminante e sedutora, linha vital de narração do humano contexto do humano poder de humanamente ser. O humanismo de Denser não é tipicamente o humanismo dos moralismos atávicos irresponsáveis e danificantes das camadas de sensatez no humano ser. O humanismo de Denser é uma porrada atômica na consciência, uma extrema-unção da inabilidade existencial, uma salvação das relíquias ocultas na inconsciência, o afloramento de chegadas a patamares conscientes de virulências vitalizadoras das formas de pensamento, um alcance de um Ideal, um Ideal do olhar interno, um Ideal do mundo interno, um Ideal distante dos ideais do mundo externo, tão desgraçadamente inúteis em nosso mundo contemporâneo.


O Ideal, no livro, não busca o místico processo do desligamento das coisas e nem o racional intuito de compreensão de todas as coisas. O Ideal De Caim, O Ideal D'Alma De Caim, em seus laços frouxos desligando e relacionando as ligações e relações em uma humana trajetória, no caso, a de Júlia, vítima inocente de uma existencial injustiça, é o da compreensão de si mesmo acima e no interior e afastado do que a humana trajetória fez com que se cristalizasse. Não há lições morais no livro, como eu já citara aqui anteriormente e eu afirmaria, até, que o livro foge de uma moral, já que toda moral é apenas a furiosa desculpa de parte da Humanidade para não querer expor a sua natura arcaica, a sua mecha de cabelos cortantes de faces, a sua lâmina de espadas decapitantes de fracas criaturas menores que são as buscas fúteis pelo Outro. O Si Mesmo é a tônica de Caim, pois a família é apenas uma parte contextual de algo menor, de algo passageiro, restando apenas lembranças amargas e boas, frutificantes em resultados amargos e resultados bons. No entanto, cada ser humano se faz a partir de seu desligamento dos laços familiares, que sempre são laços de misérias existenciais que impedem o evoluir total de um Ser; cortando esses laços, laços frouxos ao modo dos laços de Caim, a catártica e afluente noção de clímax existencial é o nascimento de um Novo Ser, longe do ontem, próximo do amanhã, deslizante no presente. As lembranças, a herança, tornam-se, então, partes de um painel definidor das caminhadas que possam ser dadas com a liberdade dos pássaros que se direcionam para o norte seguros de já terem percorrido com seguridade o sul.
Aos que buscam livros com alma de lições maiores do que as aprendidas nos bancos escolas das nossas medíocres atuais escolas, faculdades e universidades, este livro de Márcia Denser é uma recomendação indispensável e nada desprezível.

Saudações Inomináveis a todos.


- Contar a história, Amanda, não qualquer história, mas a nossa história, percebe? Nessas longas horas, desde a noite passada, que outra coisa fizemos senão resgatar nossa memória? Porque todas as tragédias, todos os crimes, todo o pecado e toda a glória já aconteceram, tornaram-se retrospectivos, mas estamos aqui a recontá-los, atualizá-los, tomar posse deles, sentir-lhes a presença, aqui, agora, esta noite, é nossa herança, Amanda, herança desse menino que vai nascer daqui a algumas horas, herança que é todo o bem e todo o mal de que será credor, se é que nos resta ainda alguma coisa a liquidar. Não importa, ele saberá, porque agora ele sabe. E, uma vez que já não terá nosso sobrenome, a maldição acaba aqui. Porque a maldição era o esquecimento, Amanda, Caim era o assassinato da memória, mas Caim também é esta cicatriz, a lembrança desse crime e a necessidade de redimi-lo. pag. 141.


Links:

Márcia Denser - Releituras

Márcia Denser - Germinaliteratura

Márcia Denser - Klick Escritores


Márcia Denser - Cronópios

Márcia Denser - CongressoEmFoco.Com.Br








0 Loucas Pedras Lançadas: