Visitando Os Escritores E Poetas Incomuns - O Incomum Anthony Burgess


A única desculpa de que se dispõe para escrever, ainda, um livro sobre Jesus Cristo, consiste, provavelmente, em sugerir fatos novos, verdades novas e interpretações novas. Do ponto de vista biográfico tudo foi dito, de uma vez por todas, nos quatro Evangelhos. Em princípio, um romance desse tipo não conseguiria ser senão um remanejamento do relato, visando ao sensacional, tendendo, por exemplo, a provar que Cristo, na realidade, era Judas, ou que o crucificado foi Pôncio Pilatos, e o Cristo, disfarçado em centurião, aquele que lhe transpassou o flanco com um golpe de lança. Meu romance – ai de mim! - nada quer renovar. Ele acompanha o relato dos quatro Evangelhos, utilizando invenções perfeitamente plausíveis apenas para preencher a grande lacuna que se estende, na vida de Jesus, entre seu bar mitzvahe o começo de sua missão. É assim que eu faço dele um homem casado, depois viúvo sem filhos. Aí, porém, interrompe-se minha tentativa de revolução.


Anthony Burgess

Mônaco, 07 de junho de 1977

in: prefácio de O Homem De Nazaré (no original, Jesus Christ and the love game)



Vários sentidos existem no revolucionar que podem ser identificáveis até nos pequenos atos do não-revolucionar. Escrever com toda a alma apta a compreendem o âmago exato das palavras trabalhadas; escrever com toda a alma especializando-se no trabalhar a mais oculta alma de toda palavra no papel proferida; escrever com toda a alma produzindo os filhos mui queridos das vozes que falam através das palavras escritas no papel; escrever com toda a alma no roteiro perfeito das similaridades do escritor com um Deus Criador, um Deus Criador que pode subir às Altas Esferas e descer às Mais Baixas Esferas, em um momento, em todos os momentos, nos momentos todos da imersão total no todo da criação literária. Se nos atentarmos à obra de Anthony Burgess (1917-1993), veremos as ascensões e as descidas aos mais altos horizontes e aos mais altos abismos, altos abismos porque todos estes, diferente do que se pensa de comum modo, são redutos de riquezas capazes de fazerem evoluir toda mente e todo Espírito de um Ser voltado ao pleno estabelecer de conhecimento, apenas conhecimento, no interior deles. Tudo há em O Homem De Nazaré, um livro a apresentar Jesus de Nazaré em seu aspecto humano, um livro polêmico escrito com o incomum intuito de trazer uma reflexão a mais acerca do melhor e maior de todos os Seres que já caminharam no Planeta Terra, Ser perto do qual todos nós somos apenas um monte fodido de merda.


Por que falar de Jesus em um mundo materialista como o da Internet que tenciona ser espiritualista e fracassa porque a Humanidade não mais se apega às Coisas Espirituais?”, perguntam-se, agora, alguns de vocês. Nada, na última parte deste artigo, de conotações religiosas, de preconceitos estéticos ou a antiga verbalidade, fraca por sinal, do ateismo, a querer contradizer o que nem mesmo tem certeza do que estuda realmente. Pensa este Inominável Ser que todos a lerem os artigos publicados neste blog, sejam homens e mulheres sem preconceitos, preocupados na aquisição de conhecimentos, em estudos os mais diversos e amplos, que não se apoiem no comum crido pela nossa sociedade mundial dotada apenas de comuns que pensa de forma comum. No livro de Burgess somos apresentados a um homem que poderia, agora, estar conosco em um ônibus, no trem ou caminhando pelas ruas, incólume, sem o aspecto fantasista e mitológico a ele direcionado por uma certa religião que todos nos conhecemos, a qual nem é preciso aqui citar. Se somos todos parte do Homo culturalis, espécie rara que não vê barreiras na busca do Verdadeiro Conhecimento que poucos podem ter um acesso simples e aprofundado, que percorre toda via de estudos e de informações possíveis, devemos aceitar que se cite, sim, Jesus de Nazaré, aqui, sem medo de tal citação ser vista como espetaculosa e chamativa de demais atenções. Sem espetáculos e chamativas de tal ordem, pode-se ler e considerar o livro supracitado de Burgess, de palavras simples que nas entrelinhas tornam-se mais simples ainda, como incomum.


As complexidades validam certas obras, clássicas, modernas, contemporâneas, e validarão as futuras, as que ainda serão moldadas. Mas, a simplicidade tece uma linha vertiginosa de importância dentro do capítulo todo da escrita de um incomum livro. Quando remeto à simplicidade não cito a dos best-sellers de milhões de dólares de renda que apenas possuem o vazio impossibilitador de maiores relíquias serem em si encontradas. A simplicidade de Burgess, a simplicidade de sua linguagem, vai atuante nas esferas mais implícitas de visões que ele concede ao leitor. A cada passagem do livro, como dito acima, se tem a impressão de que Jesus caminha ao nosso lado, como alguém que podemos tocar, como alguém que podemos abraçar, como alguém que podemos ter como amigo, como alguém que podemos chamar, intimamente, de irmão. A narrativa que o faz pai de família e o faz envolver-se com o sexo feminino de um modo que apenas os comuns homens são capazes não é levada para o típico lado de revistas sensacionalistas como Marie Claire, Caras, Quem e Isto É Gente. Qualquer escritor de duvidoso talento recorreria à linguagem presente nestas “obras” que mais poluem de lixo e excrementos a mente humana do que causam o efeito da elevação d'alma durante e após a leitura. De incomum talento, Burgess vai fazendo uma caminhada simples e enriquecedora dos leitores da gênese de Jesus neste mundo até a aparição dele aos apóstolos após sua crucificação. Na base clássica da escola eterna dos grandes escritores, Burgess promove uma prazerosa viagem pelos acontecimentos, mui humanos, nada fora do humano, excetuando a aparição de Jesus após sua crucificação, que exploram a incomum simplicidade no escrever, a incomum simplicidade da capacidade inata de apenas contar uma boa história.


Vejam um exemplo de toda a incomum simplicidade de Burgess neste trecho, à página 314:



Uma multidão é um estranho animal, dotado, sem dúvida alguma, de alma que lhe é própria, bem diferente da dos simples indivíduos que a constituem. Cumpre dizer que sua ira pela execução de Arão e Jobab foram até certo ponto abrandada pela absolvição de Barrabás, o qual se mostrava, ostensivamente, na primeira fila dos espectadores, e era felicitado e aclamado. Quando Jesus apareceu, muitos viram o que estava escrito no titulus e ficaram furiosos com a alusão à sua realeza. Não discerniam muito bem se era a própria pretensão de Jesus que os irritava ou o que podia ser apenas uma sátira insolente dos romanos. Jesus nunca parecera maior, um grande touro de homem, calmo, sangrento, oprimido pela sua monstruosa carga. Jamais tinham visto cruz semelhante àquela. O comum, como já se disse, era a barra tranversal destacável e a vertical permanente e fixa no local. A cruz inteira era motivo de espanto e temor respeitoso. Houve um momento de silêncio na massa humana, e o choro das mulheres se fez ouvir acima dela. Cochichava-se por toda parte que uma delas era a mãe do criminoso, “aquela formosa senhora, muito digna, lá, podes ver?” Um murmúrio de simpatia subiu, e o oficial encarregado da crucificação, a despeito da sua relativa inexperiência, sentiu correr-lhe pele pele um calafrio premonitório, cônscio de que tal murmúrio continha em seu bojo mais perigo em potencial que todos os clamores, maldições e apedrejamentos. Foi o nervosismo que o fez dar um frouxo golpe de chicote no flanco de Jesus. Este se voltou, bruscamente, a enorme cruz balançando no ar com o movimento, e lançou-lhe um olhar de piedade.

- Avança – disse o oficial, em tom quase súplice. - Gosto tanto disso quanto tu.

- Então Jesus, virando-se de lado, dirigiu-se com sua voz clara, forte e familiar às mulheres de Jerusalém:

- Não choreis por mim, filhas de Jerusalém. Chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos. Porque dias virão em que se dirá: bem-aventuradas as estéreis, que não geraram nem amamentaram. Nesses dias dir-se-á aos montes: caí sobre nós; e os outeiros: cobri-nos. Porque se em lenho verde fazem isto, o que não farão com o lenho seco?



Vivemos todo o momento da passagem acima. Paramos a todo percurso da passagem acima para nos situarmos nos corações e almas dos personagens envolvidos. Somos a multidão. Somos Barrabás. Somos o oficial. Somos Jesus. Somos as mulheres chorando por Jesus. O simples caminha nas linhas acima, leitores virtuais, Burgess trabalha sem tocar no simplismo da inabilidade inutilizadora das palavras que tanto afetam muitos dos atuais escritores, os pseudoescritores de alguns dos inúteis campeões de vendas de livros esdrúxulos e ineficientes no tocante a fazer todo leitor refletir. O que seria o lenho verde? O que seria o lenho seco? O que Jesus quis dizer? O que Jesus não quis dizer? Seria o lenho verde referente ao oficial? Seria o lenho seco referente a si mesmo? Seria o lenho verde referente às lágrimas das mulheres? Seria o lenho seco referente às lágrimas das mulheres? Misteriosas, enigmáticas, poderosas palavras advindas dos magistrais lábios de Jesus, que podemos sentir como um corajoso a carregar, sem maldizer o oficial que lhe chicoteou, a sua cruz. Sentimos uma repulsa lendo os maus-tratos impostos a ele e descritos por Burgess de um modo que não remontou à produção de um excesso sentimento de piedade e lamentação por parte dos leitores. O Jesus de Burgess, como na passagem acima, até o Calvário, desde a sua prisão, foi um Verdadeiro Forte, Verdadeiro Forte que nos leva a refletir sobre muitas coisas que, sendo de fáceis soluções, aos nossos olhos, tornamos de difícil e, até, impossível solução. A solução que o Jesus de Burgess encontrou foi a da aceitação de seu sofrimento como algo necessário ao inspirar outros a agirem do mesmo modo e a aceitarem o seu sofrimento. O possível solucionar do sofrimento do Jesus de Burgess foi render-se ao seu sofrimento e ensinar a todos em redor que o sofrer é a fundamental força capacitadora da formação imorredoura e inesgotável do Verdadeiro Ser. O possível solucionar na crucificação ensinou a todos que o Verdadeiro Caminhar está em aceitar o sofrer e no mesmo sofrer procurar as armas do Verdadeiro Ser. E, após Jesus dar o seu último suspiro à página 322, na página seguinte Burgess faz como que um resumo da intenção desmistificadora de seu livro como um todo:


Das lendas que se acumularam sobre esse momento, poucas são aquelas em que um homem de bom senso se dispõe a crer. A chuva, o trovão, os relâmpagos eram de se esperar, ao fim da longa estiagem, e talvez tenha sido apenas por esse dom de dramatizar, próprio da natureza e no qual ela parece comprazer-se, que a morte de um homem e a grande lavagem da terra se confundiram de maneira teatral como causa e efeito. Não houve nem tremor de terra nem desabamento de edifícios, mas o véu do Templo rasgou-se efetivamente, de alto a baixo. Um sacerdote muito velho, que emudecera de repente em virtude de uma visitação angélica – é o que se conta –, agarrou-se para não cair na cortina que separava a parte pública do Templo do Santo dos Santos. Na sua queda, rasgou o pano. Quando, mais tarde, recobrou a palavra, foi para explicar que o arcanjo Gabriel lhe aparecera e anunciara que sua velha mulher daria à luz um filho, que seria como uma luz em Israel. Se essa profecia jamais se cumpriu, ninguém sabe. Dela não ficou traço.



Com uma ironia que levemente podemos notar, Burgess contesta um pouco das arcaicas crenças proféticas e põe-se a favor de um guiar todas as reflexões acerca de acontecimentos sobrenaturais para as explicações baseadas em leis puramente físicas. O conteúdo sobrenatural explicado pode ser pelos dotados de interesse pelo Oculto, isso ele deixa bem claro em todo o livro, o que pode ser pecebido se nos adequarmos à simplicidade com a qual é narrada por ele a trajetória profetizada de Jesus na Terra. O caminho seguido por Burgess, no livro, mostrou O Homem e não “O Deus Nascido De Uma Virgem E Que Seria O Redentor E Salvador Da Humanidade”, crença tola de religiões tolas e seitas tolas para mentes mais tolas ainda. O Jesus de Burgess, como o Jesus histórico, mostrou apenas uma possibilidade de caminhada, Verdadeira Caminhada, para quem quisesse seguir tal possibilidade, apenas isso, sem mistérios, sem ismos, sem cataclismos, sem esquisitices fanaticamente pregadas pelas religiões e seitas que se seguiram, nascendo ainda hoje aos montões, a partir do que ele realizou e falou neste mundo. O incomum, o mais simples do incomum, em Burgess, foi ter feito de Jesus um HOMEM, com todos os defeitos e virtudes, anseios e desejos, de todo homem que tenha como mãe uma MULHER e não uma santa, e como pai um HOMEM e não um Deus.


Este foi o incomum Anthony Burgess, em simplicidade e, digamos, em humildade, incomum humildade, na forma de escrever. Entre os incomuns escritores, claro, ele eternamente permanecerá incólume.


Links:

Anthony Burgess - Wikipedia

Geneton.com.br: Anthony Burgess

Anthony Burgess Interview With Don Swain

Scriptorium - Anthony Burgess

Literary Encyclopedia: Anthony Burgess

Anthony Burgess - Britannica Online Encyclopedia







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