Visitando Os Escritores E Poetas Incomuns - O Incomum Álvares de Azevedo


LÉLIA


Passou talvez ao alvejar da lua,

Como incerta visão na praia fria...

Mas o vento do mar não escutou-lhe

Uma voz a seu Deus!...ela não cria!


Uma noite, aos murmúrios do piano

Pálida misturou um canto aéreo...

Parecia de amor tremer-lhe a vida

Revelando nos lábios um mistério!


Porém, quando expirou a voz nos lábios,

Ergueu sem pranto a fronte descorada,

Pousou a fria mão no seio imóvel,

Sentou-se no divã... sempre gelada!


Passou talvez do cemitério à sombra

Mas nunca numa cruz deixou seu ramo,

Ninguém se lembra de lhe ter ouvido

Numa febre de amor dizer: “eu amo!”


Não chora por ninguém... e quando, à noite,

Lhe beija o sono as pálpebras sombrias

Não procura seu anjo à cabeceira

E não tem orações, mas ironias!


Nunca na terra uma alma de poeta,

Chorosa, palpitante e gemebunda

Achou nessa mulher um hino d’alma

E uma flor para a fronte moribunda.


Lira sem cordas não vibrou d’enlevo,

As notas puras da paixão ignora,

Não teve nunca n’alma adormecida

O fogo que inebria e que devora!


Descrê. Derrama fel em cada riso,

Alma estéril não sonha uma utopia...

Anjo maldito salpicou veneno

Nos lábios que tressuam de ironia.


É formosa contudo. Há dessa imagem

No silêncio da estátua alabastrina

Como um anjo perdido que ressumbra

Nos olhos negros da mulher divina.


Há nesse ardente olhar que gela e vibra,

Na voz que faz tremer e que apaixona

O gênio de Satã que transverbera,

E o langor pensativo da Madona!


É formosa, meu Deus! Desde que a vi

Na minh’alma suspira a sombra dela...

E sinto que podia nesta vida

Num seu lânguido olhar morrer por ela.


Uma meditação a cada verso. Uma meditação de grandes noções exatas direcionadas ao mais puro e imenso do coração. Uma meditação a cada verso. Uma meditação tocando nos universos de sãos sentimentos de pureza angelical. Uma meditação a cada verso. Uma meditação na exposição da angélica visão da amada, amada suprema, amada absoluta, amada sublime, amada inquestionavelmente a maior de todas as criaturas no poético olhar maior. Uma meditação a cada verso. Uma meditação na intenção do superior tocar no incessante navegar nas cálidas suavidades ímpares do Verbo Amar. Uma meditação a cada verso. Uma meditação antecipando e sendo ela mesma a expressividade maiorizante das conjugações do Verbo Amar. Uma meditação a cada verso. Uma meditação que leva ao angustiante modo de amar, conjugando verbos de infelicidade por direcionar tanto Amor a um Ser que não quer amar. Uma meditação a cada verso. Uma meditação em direção à Lélia, fria Lélia, sombria Lélia, trevosa Lélia, Lévia recheada de Trevas a distanciarem-na do Verbo Amar. Uma meditação a cada verso. Uma meditação transpassando a transfiguração da mórbida Lélia em objeto de um Amor, Amor espantosamente erguido, Amor que não beira a nenhuma queda diante de toda e qualquer destrutiva visão de Lélia. Uma meditação a cada verso. Uma meditação que medita sobre os versos meditativos de cada conjugação exata do Verbo Amar no poético amoroso coração do poeta dedicado a tal conjugar. Uma meditação a cada verso. Uma meditação encarnando a todo conjugar do Verbo Amar, Verbo que afronta toda miséria, Verbo que afronta toda maldição, Verbo que afronta toda desgraça que pode impedi-Lo de ser poeticamente conjugado.


Conjugador maior do Verbo Amar, Álvares de Azevedo (1831-1852). Muito se tem dito que ele foi apenas um poeta dedicado ao intenso pessimismo, ao melancólico estado de deteriorar-se em versos, ao angustioso meio de esgotar-se nas lágrimas lançadas nas páginas de seus livros. Porém, pouco se toca no fato de que, acima da Escola Byroniana, à qual ele pertence, cintila o espetáculo imortal do Amor, de Afrodite, A Deusa Amor, A Deusa Afrodite. Toquemos sem condicionamentos intelectivos excessivos nos poemas dele e nos transportemos, sem roteiros definidores, sem esmeros delineadores, na Essência Oculta de cada um deles. Acima das dores, acima das lágrimas, acima das potências todas que moldam-lhe a estética, sobrevive, na pureza elementar alcançada apenas pelas Coisas Mais Altas, O Verdadeiro Amor. Gênio, Verdadeiro Gênio, podemos assim dizer de Álvares de Azevedo. Gênio, Verdadeiro Gênio Poético, podemos mais dizer de Álvares de Azevedo. O que movia a alma dele a cada verso, o que moldava a alma dele a cada poema concluído, o que inspirava o poetizar dele a cada dia transcorrido, era O Verdadeiro Amor. Os preconceitos de ontem e de hoje dizem que poetas como ele, que tanto tocaram nos caudalosos vales da Dor, da Deusa Dor, não compreendem O Verdadeiro Amor, são “mórbidos excessivos”, “poetas malditos”, “marginais” e outras expressões preconceituosas que se expandem pelo mundo. Os preconceitos são muito fortes, ainda, em certos setores da sociedade brasileira, conservadora e arcaica, contra a poesia de Álvares de Azevedo e dos que, hoje, são seus sucessores, diretamente por ele inspirados. Preconceituosos são mentalmente atrofiados, medíocres, simplórios, mundanos demais, estagnados demais; não poderão jamais Ver O Verdadeiro Amor expresso neste poema:


FANTASIA


Quanti dolci pensier, quanto disio!

DANTE


C’est alors que ma voix

Murmure un nom tout bas... c’est alors que je vois

M’apparaître à demi, jeune, voluptueuse,

Sur ma couche penchée une femme amoureuse!

...........................................................................

Oh! toi que j’ai rêvée,

Femme à mes longs baisers si souvent enlevée,

Ne viendras-tu jamais? ......................................

CH. DOVALLE


À noite sonhei contigo...

E o sonho cruel maldigo

Que me deu tanta ventura.

Uma estrelinha que vaga

Em céu de inverno e se apaga

Faz a noite mais escura!


Eu sonhava que sentia

Tua voz que estremecia

Nos meus beijos se afogar!

Que teu rosto descorava

E teu seio palpitava

E eu te via a desmaiar!


Que eu te beijava tremendo,

Que teu rosto enfebrecendo

Desmaiava a palidez!

Tanto amor tua alma enchia

E tanto fogo morria

Dos olhos na languidez!


E depois... dos meus abraços,

Tu caíste, abrindo os braços,

Gélida, dos lábios meus...

Tu parecias dormir,

Mas debalde eu quis ouvir

O alento dos seios teus...


E uma voz, uma harmonia

No teu lábio que dormia

Desconhecida acordou,

Falava em tanta ventura,

Tantas notas de ternura

No meu peito derramou!


O soído harmonioso

Falava em noites de gozo

Como nunca eu as senti.

Tinha músicas suaves,

Como no canto das aves,

De manhã eu nunca ouvi!


Parecia que no peito

Nesse quebranto desfeito

Se esvaía o coração...

Que meu olhar se apagava,

Que minhas veias paravam

E eu morria de paixão...


E depois... num santuário

Junto do altar solitário

Perto de ti me senti,

Dormias junto de mim...

E um anjo nos disse assim:

Pobres amantes, dormi!”


Tu eras inda mais bela...

O teu leito de donzela

Era coberto de flores...

Tua fronte empalecida,

Frouxa a pálpebra descida,

Meu Deus! que frio palor!...


Dei-te um beijo... despertaste,

Teus cabelos afastaste,

Fitando os olhos em mim...

Que doce olhar de ternura!

Eu só queria a ventura

De um olhar suave assim!


Eu dei-te um beijo, sorrindo

Tremeste os lábios abrindo,

Repousaste ao peito meu...

E senti nuvens cheirosas,

Ouvi liras suspirarem,

Rompeu-se a névoa... era o céu!


Caía chuva de flores

E luminosos vapores

Davam azulada luz...

E eu acordei... que delírio!

Eu sonho findo o martírio

E acordo pregado à cruz!



A fantasia, a atitude da fantasia, a altitude da fantasia, criam um painel onde denudam-se amorosas litanias a mais ocultadas entre os versos de um voraz sentimentalismo exacerbador do ser amado. No incomum de tal estilo, o estilo de Álvares de Azevedo, se notarmos as predominâncias ocultas de estâncias amorosas entre os versos, notaremos espaços que preenchidos são, em sua maior parte, pelas fontes das coisas atuantes nas velocidades todas das regiões suavemente sem mistérios do Verdadeiro Amor. Legiões de pássaros maravilhosos e maravilhados se conduzem através da poética pena de Álvares de Azevedo, o voar de momentos de rimas amorosamente construidas se equilibra com as métricas amorosamente reconstrutivas. Construção amorosa está na superfície do poema acima. Reconstrução amorosa está na essência oculta do poema acima. Constrói-se a consistência da amorosidade, amorosidade sensual, amorosidade carnal, amorosidade dos sentidos, aquela amorosidade da pele sedenta pelo calor aprofundador de contato com outra pele. Reconstrói-se a onipotência da amorosidade, a amorosidade espiritual, a amorosidade elementarmente desconhecida quando distante do coração, quer seja este poético ou não; a amorosidade que complementa todo Verdadeiro Ato De Amor Em Toda Verdadeira Forma De Amar, Forma Mais Autêntica, Forma Mais Genuína, Forma Mais Plena Do Que Toda Comum Forma De Amar.


A Amorosidade é uma na poesia de Álvares de Azevedo. No tecido incomum, incomum tecido do incomum tecer poético dele, quem for mais atento ao intenso interno tornado de emoções adentradas nos versos, notará a Amorosidade. Preconceituosamente, não se pode definir uma incomum poesia como a dele; é o mesmo que tentar preencher uma gaveta de roupas novas com roupas antigas e desgastadas. É desgastado, antigo (na acepção negativa deste termo), o preconceito contra todo e qualquer poeta, seja este de qual Escola for. Quando este Inominável Ser aqui, na segunda parte deste artigo, critiquei Olavo Bilac e os parnasianos, de uma maneira geral, apenas me referi à falta de maior emotividade e envolvimento espiritual nos poemas que eles deram ao mundo, isentando-me de todo e qualquer preconceito referente aos estilos e contornos estilísticos das obras deixadas ao mundo pelos mesmos. Deliberadamente atacar uma poesia, qualquer que esta seja, é uma imbecilidade de mentes não-poéticas, mentes que apenas sabem ver as coisas pelo prisma da sobriedade formalidade das expressividades social e moralmente aceitas. Caso algum leitor esteja duvidando do preconceito, ainda, contra Álvares de Azevedo e os demais poetas do mesmo estilo dele, verifique nas escolas e nas faculdades se existem extensos estudos e programas de estudos a tocarem em suas obras. Vasculhem, se o quiserem, toda escola ou faculdade que puderem vasculhar e tirem, depois, as suas conclusões. As conclusões deste Inominável Ser aqui já foram, há muito, tiradas, e expressam-se nesta terceira parte deste artigo.


É necessário tocar no preconceito contra poetas como Álvares de Azevedo aqui, pois a poesia deste acredita-se, pelos que a admiram e amam com toda alma, entre as maiores do mundo. Afora a opinião pessoal deste Inominável Ser aqui, a obra dele circula entre as mais incomuns esferas poéticas mundiais, aquelas esferas que não possuem muita aceitação e atenção do grande público. Admirado e amado pelos amantes da Poesia, A Deusa Poesia; admirado e amado pelos góticos; admirado e amado pelos soturnos; admirado e amado pelos darks; admirado e amado pelos que assassinaram os montantes de preconceitos estéticos residentes em suas almas, ele se afigura na incomum imortalidade dos incomuns poetas de todos os tempos desta Humanidade. O Verdadeiro Amor, nele, expressa-se nas demais temáticas com as quais trabalhou, como a da poesia regionalista:




NA MINHA TERRA



Laisse-toi donc aimer! Oh! l’amour c’est la vie!

C’est tout ce qu’on regrette et tout ce qu’on envie,

Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner!

...............................................................................

La beauté c’est le front, l’amour c’est la couronne:

Laisse-toi couronner!

    V. HUGO



I

Amo o vento da noite sussurrante

A tremer nos pinheiros

E a cantiga do pobre caminhante

No rancho dos tropeiros;


E os monótonos sons de uma viola

No tardio verão,

E a estrada que além se desenrola

No véu da escuridão;


A restinga d’areia onde rebenta

O oceano a bramir,

Onde a lua na praia macilenta

Vem pálida luzir;


E a névoa e flores e o doce ar cheiroso

Do amanhecer na serra,

E o céu azul e o manto nebuloso

Do céu de minha terra;


E o longo vale de florinhas cheio

E a névoa que desceu,

Como véu de donzela em branco seio,

As estrelas do céu.



II

Não é mais bela, não, a argêntea praia

Que beija o mar do sul,

Onde eterno perfume a flor desmaia

E o céu é sempre azul;


Onde os serros fantásticos roxeiam

Nas tardes de verão

E os suspiros nos lábios incendeiam

E pulsa o coração!


Sonho da vida que doirou e azula

A fada dos amores,

Onde a mangueira ao vento que tremula

Sacode as brancas flores...


E é saudoso viver nessa dormência

Do lânguido sentir,

Nos enganos suaves da existência

Sentindo-se dormir...


Mais formosa não é, não doire embora

O verão tropical

Com seus rubores... a alvacenta aurora

Da montanha natal...


Nem tão doirada se levante a lua

Pela noite do céu,

Mas venha triste, pensativa e nua

Do prateado véu...


Que me importa? se as tardes purpurinas

E as auroras dali

Não deram luz às diáfanas cortinas

Do leito onde eu nasci?


Se adormeço tranqüilo no teu seio

E perfuma-se a flor,

Que Deus abriu no peito do poeta,

Gotejante de amor?


Minha terra sombria, és sempre bela,

Inda pálida a vida

Como o sono inocente da donzela

No deserto dormida!


No italiano céu nem mais suaves

São da noite os amores,

Não tem mais fogo o cântico das aves

Nem o vale mais flores!



III

Quando o gênio da noite vaporosa

Pela encosta bravia

Na laranjeira em flor toda orvalhosa

De aroma se inebria...


No luar junto à sombra recendente

De um arvoredo em flor,

Que saudades e amor que influi na mente

Da montanha o frescor!


E quando, à noite no luar saudoso

Minha pálida amante

Ergue seus olhos úmidos de gozo

E o lábio palpitante...


Cheia da argêntea luz do firmamento,

Orando por seu Deus,

Então... eu curvo a fronte ao sentimento

Sobre os joelhos seus...


E quando sua voz entre harmonias

Sufoca-se de amor

E dobra a fronte bela de magias

Como pálida flor...


E a alma pura nos seus olhos brilha

Em desmaiado véu,

Como de um anjo na cheirosa trilha,

Respiro o amor do céu!


Melhor a viração uma por uma

Vem as folhas tremer,

E a floresta saudosa se perfuma

Da noite no morrer...


E eu amo as flores e o doce ar mimoso

Do amanhecer da serra

E o céu azul e o manto nebuloso

Do céu da minha terra!



O Verdadeiro Amor à terra natal, cujo caloroso solo desperta na poética alma a lírica mais amorosamente monumental, lírica divinal, lírica estrelada, lírica solar. Divino o Amor à terra-natal, cada verso uma dedicada alta canção a esta oferecida. Estrelado o Amor à terra-natal, movimentada por constelações ricas de tesouros douros decantadores de faculdades inatas desta. Solar o Amor à terra natal, espaços iluminados por raios de puro envolvimento e evolução vitais que aquecem o organismo físico, o organismo mental e o organismo espiritual, espaços todos daquela.


Nesta Prosa Poética, O Verdadeiro Amor aos mistérios esotéricos:


EUTANÁSIA


Ergue-te daí, velho! ergue essa fronte onde o passado afundou suas rugas como o vendaval no Oceano, onde a morte assombrou sua palidez como na face do cadáver, onde o simoun do tempo ressicou os anéis louros do mancebo nas cãs alvacentas de ancião?


Por que tão lívido, ó monge taciturno, debruças a cabeça macilenta no peito que é murcho, onde mal bate o coração sobre a cogula negra do asceta?


Escuta: a lua ergueu-se hoje mais prateada nos céus cor-de-rosa do verão, as montanhas se azulam no crepuscular da tarde e o mar cintila seu manto azul palhetado de aljôfares. A hora da tarde é bela, quem aí na vida lhe não sagrou uma lágrima de saudade?


Tens os olhares turvos, luzem-te baços os olhos negros nas pálpebras roxas e o beijo frio da doença te azulou nos lábios a tinta do moribundo. E por que te abismas em fantasias profundas, sentado à borda de um fosso aberto, sentado na pedra de um túmulo?


Por que pensá-la... a noite dos mortos, fria e trevosa como os ventos de inverno? Por que antes não banhas tua fronte nas virações da infância, nos sonhos de moço? Sob essa estamenha não arfa um coração que palpitara outrora por uns olhos gázeos de mulher?


Sonha!... sonha antes no passado, no passado belo e doirado em seu dossel de escarlate, em seus mares azuis, em suas luas límpidas e suas estrelas românticas.


O velho ergueu a cabeça. Era uma fronte larga e calva, umas faces contraídas e amarelentas, uns lábios secos, gretados, em que sobreaguava amargo sorriso, uns olhares onde a febre tresnoitava suas insônias...


E quem to disse — que a morte é a noite escura e fria, o leito de terra úmida, a podridão e o lodo? Quem to disse — que a morte não era mais bela que as flores sem cheiro da infância, que os perfumes peregrinos e sem flores da adolescência? Quem to disse — que a vida não é uma mentira? — que a morte não é o leito das trêmulas venturas?



Os Mistérios Da Morte, Mistérios Da Deusa Morte. Ao ancião, indagações, de forma arrogante, guiadas. Ao ancião, indagações de uma alma ainda à ilusionista materialidade atada. A arrogância era muita, as indagações fluem de um modo desrespeitoso, apesar de ser um modo indagador a versar sobre os misteriosos mecanismos dos umbrais, do Além-Vida. O ancião, representando A Sabedoria Alcançada, calmamente, na humildade de sua eternidade toda voltada ao Verdadeiro Compreender Dos Mistérios Da Deusa Morte, responde que nesta há uma extrema vivência onde se é possível permanecer sem as agruras materiais. O indagador, certamente o mais inexperiente dos jovens, representando A Insensatez Exacerbada cala-se à resposta, a sua arrogância torna-se a mais esmigalhável de todas as cinzas, a sua arrogância jorra em nadas inexpressivos e incoerentes, a sua arrogância torna-se extremo silêncio...


Neste poema, O Verdadeiro Amor às perdições existenciais:



O POETA MORIBUNDO


Poetas! amanhã ao meu cadáver

Minha tripa cortai mais sonorosa!

Façam dela uma corda, e cantem nela

Os amores da vida esperançosa!


Cantem esse verso que me alentava...

O aroma dos currais, o bezerrinho,

As aves que na sombra suspiravam,

E os sapos que cantavam no caminho!


Coração, por que tremes? Se esta lira

Nas minhas mãos sem força desafina,

Enquanto ao cemitério não te levam

Casa no marimbau a alma divina!


Eu morro qual nas mãos da cozinheira

O marreco piando na agonia . . .

Como o cisne de outrora... que gemendo

Entre os hinos de amor se enternecia.


Coração, por que tremes? Vejo a morte

Ali vem lazarenta e desdentada. ..

Que noiva!. . . E devo então dormir com ela?. ..

Se ela ao menos dormisse mascarada!


Que ruínas! que amor petrificado!

Tão antediluviano e gigantesco!

Ora, façam idéia que ternuras

Terá essa lagarta posta ao fresco!


Antes mil vezes que dormir com ela,

Que dessa fúria o gozo, amor eterno. . .

Se ali não há também amor de velha,

Dêem me as caldeiras do terceiro Inferno!


No inferno estão suavíssimas belezas,

Cleópatras, Helenas, Eleonoras;

Lá se namora em boa companhia,

Não pode haver inferno com Senhoras!


Se é verdade que os homens gozadores,

Amigos de no vinho ter consolos,

Foram com Satanás fazer colônia,

Antes lá que no Céu sofrer os tolos!—


Ora! e forcem um'alma qual a minha

Que no altar sacrifica ao Deus Preguiça

A cantar ladainha eternamente

E por mil anos ajudar a Missa!



Uma dedicada exaltação aos Infernos, às poderosíssimas maravilhas existenciais nestes presentes, onde os Perdidos Da Criação encontram-se todos como uma amorosa irmandade votada aos devaneios mui agradáveis a todos eles. Amorosamente, uma rebeldia, incomum rebeldia, exala do poema acima, há que se potencializar tal Amor, tal Rebelde Amor, para que o mesmo seja verdadeiramente compreendido. Amores Infernais, Infernais Amores, amorais, imorais, qual poeta, durante toda a História Da Humanidade, não os possuiu? Os poetas de todos os estilos os possuem e vemos no poema acima que Álvares de Azevedo destaca-se por possuir, como caráter inato, tal amor pelo expressar os seus Infernos Internos e os Infernos Exteriores em versos dotados da mais incomum de todas as autenticidades e sinceridades. Um pouco citando John Milton na penúltima estrofe, ele se dedica ao afirmar-se sentir-se mais agradavelmente disposto nos Infernos do que em um monótono Céu; ou seja, ele afirma o Amor, Amor Total, à sua rebeldia poética, incomum rebeldia poética, dando braços a Satan e a todos os demais Seres Infernais. É Poético Amor, Incomum Poético Amor, capaz de embelezar as mais tenebrosamente formadas Trevas Infernais.

Finalizando os exemplos acerca das expresões várias do Verdadeiro Amor em Álvares de Azevedo, ponho aqui um poema direcionado a um local correto e determinado que, atualmente, está cegado pela venenosa rotina do capital:



D I N H E I R O


Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune,

adoré; on a consideration, honneur,

qualités, vertus. Quand on n'a point d'argent,

on est dans la dépendance de toutes ces

choses et de tout le monde.


CHATEAUBRIAND



Sem ele não há cova—quem enterra

Assim gratis a Deo? O batizado

Também custa dinheiro. Quem namora


Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?

Demais, as Dánaes também o adoram.

Quem imprime seus versos, quem passeia,

Quem sobe a Deputado, até Ministro,

Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,

Embora gênio, talentosa fronte, Alma

Romana, se não tem dinheiro?

Fora a canalha de vazios bolsos!


O mundo é para todos.... Certamente,

Assim o disse Deus—mas esse texto

Explica se melhor e doutro modo.

Houve um erro de imprensa no Evangelho:

O mundo é um festim—concordo nisso,

Mas não entra ninguém sem ter as louras.



Remeto os leitores à introdução deste artigo, na primeira parte do mesmo, para que possam compreender do porquê da referência acima mencionada do direcionamento correto e determinado do poema acima. Um poema muitíssimo atual, leitores virtuais...


O Verdadeiro Amor não é apenas que guia aos casamentos e, conseqüentemente, à procriação, ao conduzir novas criaturas ao viver neste mundo absorto mais em abismais tragédias do que altíssimas glórias. O Verdadeiro Amor não é apenas o de um fervoroso religioso em relação ao seu Deus, seja este pessoal ou impessoal. O Verdadeiro Amor não é apenas o do jovem a cantarolar belas cantigas, com ou sem violão, para a sua amada. O Verdadeiro Amor, O Amor Espiritual, reside também no exaltar dos abismais recônditos da Realidade e, ao mesmo tempo, nas Altas Esferas Da Realidade. Os incomuns poetas possuem esse incomum dom, incomum dom que não foi dado ou doado por algum Deus ou Ser Superior, incomum dom que é produção exclusiva de seu Espírito Eterno. Álvares de Azevedo, os incomuns poetas antigos como ele e os incomuns poetas contemporâneos como ele, nascem já com tal incomum dom, incomum dom de seus Espíritos Eternos. Álvares de Azevedo, como todos os de sua Senda Poética, Incomum Senda Poética, podem subir nas asas de Amorosos Anjos até Amorosos Céus e descer nas asas de Amorosos Demônios até Amorosos Infernos... E todos, pelas Eras que advirão, permanecerão na História Da Humanidade acima dos preconceitos a eles direcionados; quantos preconceituosos, de uma maneira geral, permanecem historicamente como altamente lembrados na História Da Humanidade?


Na quarta e última parte deste artigo, o incomum Anthony Burgess.


Links:

Álvares de Azevedo - A Toca Da Serpente

Álvares de Azevedo - Revista Conquista

Site Do Escritor - Escritores - Álvares de Azevedo





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