Visitando Os Escritores E Poetas Incomuns - O Incomum John Milton


(...)Então, a passo rápido e declive,

Para as ilhas do Oceano o sol já desce,

E as estrelas, da noite precursoras,

Na Balança do Céu já vem subindo; ―

Quando Satã, metido inda no pasmo

Em que ficara assim que viu tais cenas,

Por fim com custo e aflito a voz desata:

'Inferno! Inferno! Que painel terrível

Meus olhos miserandos presenciam!

Em nossa estância habitam criaturas

De outro molde, talvez de terra feitas,

Que, não sendo anjos, só diferem pouco

Dos celestes espíritos brilhantes.

Os meus maravilhados pensamentos

Nelas se engolfam todos: té me sinto

Propenso a amá-las, ― tanto lhes fulgura

A semelhança divinal no porte,

E tantas graças nos gentis semblantes

A mão que as construiu pródiga esparze!

Ah! par formoso! Mal agora pensas

Na mudança que perto já te assalta:

Esses prazeres todos vão sumir-se,

E desgraça tremenda lhes sucede

Tanto mais crua quanto sentes hoje

Alegria maior nos seios d'alma.

És feliz, mas durar assim não podes

Porque bem defender-te o Céu não soube;

O Paraíso teu, onde alto habitas,

Ficou cercado mal para que impeça

Inimigo tal como o que entra agora.

Contudo, violentado é que eu te invisto:

Tenho dó de te ver assim exposto,

Não obstante de mim tu não o teres:

Busco em estreito nó a ti unir-me;

Quero contigo ter mútua amizade,

Tão vinculada que moremos ambos,

Tu em mim, eu em ti, por todo sempre.

Talvez a minha estância não agrade,

Como este Éden tão belo, a teus sentidos;

Mas, tal qual é, recebe-a por ser obra

Desse teu Criador que tanto exaltas;

Deu-ma Ele assim, assim eu te franqueio.

As vastíssimas portas há de abrir-te

O Inferno ovante, e seus monarcas todos

Hão de vir fora delas receber-te:

Terás ali morada mui diversa

Deste circuito exíguo: nela pode

Tua inúmera estirpe acomodar-se.

Se não achares grata essa vivenda,

Deves agradecê-la ao que me obriga

A tramar contra ti, que não me ofendes,

Esta vingança atroz que só devia

Recair Nele que me ofende tanto.

Pela inocência pura que te adorna

Enterneço-me assaz; porém, contudo,

O público interesse, a honra empenhada,

O ardor de me vingar engrandecendo

Co'a conquista do Mundo o meu império,

Obrigam-me a fazer coisas agora

Que eu, inda que votado às penas do Orco,

Em outras ocasiões abominara.'”


in: O Paraíso Perdido

Canto IV – pags. 146-148



Um painel da fúria vingadora de um Grande Ser, um Ser quedante, um Ser Caído das Altas Esferas. Um painel de um personagem desacreditado pela maioria humana, tido como uma mera ficção religiosa que foi proporcionada pela transfiguração do Deus Pan em “Princípe Dos Infernos”. Nada mais ignorante e torpe, a nível de conhecimento intelectual, imaginar que assim seja Satan, um mito nascido do rebaixamento de um Deus à condição de mero “Ser Do Mal”. Anjos Caídos são O Grande Mistério Das Eras; será que realmente toda a lenda e toda a história em torno Deles é real, é válida, pode ser considerada séria e isenta de ilusionismos folclóricos propositalmente nelas inseridos? Se com toda a tecnologia crescente dos dias atuais delimitando e proporcionando um maior atrofiamento da Espiritualidade de muitos seres humanos fosse utilizada no enfoque e determinação não somente da pesquisa em prol da confirmação da existência de Satan e dos Demônios, assim como na de todos os Seres Espirituais, e fosse positivamente provada a existência dos mesmos, ainda assim haveriam diversos seres humanos incrédulos a debocharem e ridicularizarem a todos que CIENTIFICAMENTE provassem tais existências de um modo literal e aprofundado. É típico de parcela da Humanidade, a parcela mais ignorante boçalmente constituida de pré-conceitos e conceitos arcaicos, a não-aceitação das Verdades Espirituais que muitos poetas decantam e declamam em seus poemas. Verdades que podem, à luz da Ciência, equilibrada com uma Verdadeira Religiosidade, mais racionalizada e propensa a evolucionismos dentro de si mesma, serem provadas como autênticas constituições de caminhos vitais para quem quiser segui-las. Com bases científicas, as visões que acima contemplamos nos versos de John Milton (1603-1674) presentes em sua obra-prima, O Paraíso Perdido, um dos grandes livros da Humanidade, aos olhos de determinados seres propensos a terem mentes mais abertas e evolutivamente melhor construidas seriam tidas como sumariamente autênticas.


Satan, no trecho acima, não é O Diabo. Satan, no trecho acima, não é Lúcifer. Muitos demonográfos consideram Satan, Diabo e Lúcifer como seres distintos, de personalidade própria, autenticamente representantes de determinadas Forças Universais disponíveis aos que Deles se aproximam com uma atitude mais racionalmente intelectiva do que emotivamente volitiva. O Satan de Milton é o grande herói, o grande personagem, o Grande Ser de O Paraíso Perdido. Herói, sim, pois a sua trajetória melancólica, perturbadora e corajosa em direção à sua vingança contra a imagem do Criador que dentro de Si possui é admiravelmente absoluta em todas as suas dimensões. Grande personagem, sim, pois nenhum dos Anjos presentes na obra assemelha-se a Ele em simpatia, em carisma, em Poder, em Força, mesmo batendo Suas Asas nas Altas Esferas Existenciais. Grande Ser, sim, pois é Aquilo tudo que os satanistas contemporâneos não são: um puro e autêntico Ser determinado a contrapor-se à Idéia de um Deus Único, Único Deus, que governe toda a Criação como um tirano a exigir obediência e Amor da parte daqueles que abaixo de Si estejam; e não um Ser revoltado contra uma religião (a Católica) que apenas exerce uma reação contra esta tornando-se um adepto do denominado, por ele, “Satanismo”. O Verdadeiro Satanismo é o do Satan de Milton, um Satan puramente rebelado contra um tirano que se autodeterminou uma “Autoridade Suprema E Absoluta Da Criação” e que conta com o auxílio de um exército de Anjos e Arcanjos totalmente propensos a lhe obedecerem a e acatarem as suas exigências e ordens. O Verdadeiro Satanismo apresenta-se em O Paraíso Perdido e cada verso de Milton, mesmo sem a intenção de assim terem sido escritos, delineia O Verdadeiro Ser Satan, longe das mentiras milenares acerca de sua Existencialidade e Papel na Criação. O Verdadeiro Satanismo, o do Satan de Milton, não leva à instituições de igrejinhas e associaçõezinhas em Seu Nome, nem ao fato digno de internação em hospícios da consideração de Satan como um “pai”. O Verdadeiro Satanismo, nos versos de O Paraíso Perdido, comunga perfeitamente com estas palavras de Eliphas Levi Zahed em Dogma E Ritual Da Alta Magia (pags. 224-225), ao fazer uma menção à atuação de Satan na Bíblia:



Eu sou o proscrito que viaja sempre e tem o infinito por pátria. Acusam-me de incendiar os planetas que aqueço e de atemorizar os astros que ilumino; censuram-me de perturbar a harmonia dos universos porque não giro ao redor dos seus centros particulares e os prendo uns aos outros, fixando meus olhares nos centros únicos dos sóis. Fica, pois, sossegada, bela estrela fixa, não quero tirar a tua luz tranqüila; pelo contrário, esgotarei por ti a minha vida e o meu calor. Poderei desaparecer do céu quando me tiver consumido; a minha sorte terá sido tão bela!”



É como a glória de uma estrela ainda a brilhar, a brilhar para si mesma, que devemos considerar o Satan de Milton, o qual, como eu disse antes, não é O Diabo e não é Lúcifer, mas um Ser Autêntico, um Ser Único, um Autêntico Ser, Único Ser. Nos versos de O Paraíso Perdido sentimo-lhe a angústia por ter Caido do Paraíso, ou seja, por ter perdido a sua Alta Condição nas Altas Esferas Existenciais. Sem ser caudalosamente panfletário de muitos ideiais cristãos e de diversos preconceitos religiosos de sua época, Milton conduziu o herói Satan de seu livro de uma maneira que podemos sentir como a mais correta em se tratando de tal polêmico Ser. Os versos não são jogados no papel à maneira de uma simplória narração da Queda e da Caminhada Satânica em direção à tentação do Homem; os versos expandem-se como o bater das asas ainda celestes de Satan, asas que querem O Retorno Ao Alto, asas que anseiam pelo Retorno Ao Alto, asas que sonham com O Retorno Ao Alto. Tentação do Homem... Tentação? O que fez Satan mais do que despertar no Homem as próprias satânicas intenções de ser livre de uma tirania proporcionada pela suposta existência de um Deus Único, Único Deus? O que fez Satan além de despertar no Homem as qualidades inatas de poder ser um Deus e mais do que um Deus? O que fez Satan além de alimentar o que é próprio da natureza humana: a exigência de uma Verdadeira Vida, de uma Verdadeira Liberdade, de um Verdadeiro Ser? Nos versos do livro, Satan representa um Ser que Verdadeiramente Vive. Nos versos do livro, Satan representa um Ser que Verdadeiramente É Livre. Nos versos do livro, Satan é um Verdadeiro Ser.


Sentimos a revolta de Satan. Sentimos a angústia de Satan. Sentimos o ódio de Satan. Sentimos que, ao lermos nas entrelinhas do trecho acima do livro, que Satan inveja ao Homem, representado por Adão e Eva, os quais visualiza e tenciona a eles unir-se em semelhança para melhor poder executar a sua tarefa de instigação dos mais secretos sonhos interiores deles. De acordo com a Kabbalah, Adam (Adão) vem a representar O Homem Universal e Heve (Eva) A Existência Elementar, da qual tudo provém; Adão e Eva, portanto, não representam seres únicos, mas Princípios Espirituais que se relacionam e se referem à Humanidade como um todo. Adamah, O Elemento Adâmico, era o mundo que destinado fora ao Homem Primitivo; e, o mais importante, IEVE Elohim, O Criador Da Coletividade Das Divinas Potências, antes de Heve ser determinado como Princípio, determinou ao Homem Universal Aisha, A Faculdade Volitiva, a qual fora induzida por Nahash, A Concupiscência, que vulgarmente foi traduzida como A Serpente, a alimentar-se da Substância Que Revelaria Todos Os Mistérios Do Conhecimento Do Bem E Do Mal. Quando eu afirmei que Satan apenas despertou nas criaturas humanas algo que já havia nelas, baseei-me nesta passagem do capítulo três de O Livro Da Gênese à luz da Kabbalah:



Ora, a Concupiscência era a principal paixão no meio de toda animalidade da Natureza elementar que IEVE Elohim, o Ser Eterno e Altíssimo,

tinha feito.



Tanto Aisha como Heve, repito mais uma vez, não foram mulheres de carne e osso, mas Princípios que, sendo Esposas Intelectuais de Adam, também um Princípio, representaram a Evolução Da Humanidade existencialmente considerada. A Divina Kabbalah apresenta as mais fiéis e confiáveis versões da Verdade que todo ser humano, se o quiser, é capaz de compreender. A citação dela nesta parte do artigo serve para conduzi-los a uma reflexão acerca do que vem a representar o Satan de Milton, o qual, claramente, baseou-se naquela Ciência Antiga para desenvolver os seus livros. Em nenhum momento, a interpretação cabalística dota Satan do Poder de ter conduzido o Homem, o Gênero Humano, a uma Queda que ainda hoje afeta-o, sem exceções de Seres que possam dizer-se 100% puros existencialmente a níveis espirituais, corporais e mentais. Em nenhum momento, agora livremente interpretando a interpretação cabalística, tem-se a noção e a certeza de um Deus Único, Único Deus, como Gerador E Governador Da Criação, pois sabe-se que cabalisticamente há os Elohins, os diversos Princípios Maiores responsáveis pela Manutenção, Geração e Evolução de todas as Coisas; “IEVE Elohim, o Ser Eterno e Altíssimo”, mas não O Único Ser Eterno E Altíssimo. E uma pergunta polêmica deixo a todos agora, pergunta nascida de uma outra interpretação minha: seria o Deus Único, Único Deus, contra o qual Satan em O Paraíso Perdido luta e que se autointitula como Deus Único, Único Deus, a Governar toda a Criação, responsável pela Geração do Paraíso e da Terra, um Elohim com pretensões de tornar-se O Único Elohim? Deixemos, entretanto, isso para que as nossas próprias capacidades intelectivas respondam, já que isso tudo é apenas uma teoria minha nascida de interpretações particulares, mas é curioso notar que na Kabbalah há referência aos Elohins e não a apenas um Ser esplendidamente situado como O Único Criador De Todas As Coisas. E, mais ainda, podemos notar que A Concupiscência não é Satan, mas Algo no interior da animalidade, a qual abarca a todos os homens e mulheres de uma maneira geral, igualmente sem exceções como no caso da Queda. Estando conscientes dessas informações aqui apresentadas de um modo livre e isento de qualquer propriedade de autenticidade a guiar para uma Verdade Absoluta, devemos insistir em crer na afirmação de que o próprio ser humano é, foi e sempre será o único tentador e inimigo de si mesmo.


Tendo isso como afirmação, explicitamente devemos considerar o Satan de Milton como acima da Humanidade. Nos versos, a carga dramática e densa nos transporta para um universalismo de tensões próprias de um Ser fadado a caminhar entre as agruras do Inferno, ao qual fora lançado por querer Ser um Deus, um Elohim, para Si mesmo. Nos versos, a poética da Queda Satânica, a poética da Queda Dos Anjos, A Poética De Satan, A Poética Dos Anjos Caídos, nos arrebata, nos explora, nos ensina que somos tão Caídos como Eles, ou mais do que Eles, pois poderíamos ter aceito outra via existencial, mas aceitamos uma via de sofrimentos, dores e mágoas maiores do que as Deles. Maiores porque Satan diz no livro que “é melhor reinar no Inferno do que servir no Céu” enquanto que a maioria humana religiosa diz que “é melhor sermos servos de um Deus bom e fiel do que tentados por Satan e Seus servos”. A admiração por Satan, o Satan de Milton, que muitos possuem, advém da rebelde forma de comportar-se existencialmente contrária ao modo humano comum de Ser. Claro, vou repetir, que Milton não teve a consciência de ter criado, durante toda a concepção do livro, um personagem que através dos anos se imortalizasse como o representante maior de toda mais autêntica rebeldia existencial. Mas, a sua incomum pena agiu na elaboração de tal imagem fascinante que antecipa-se a todo acontecimento e Mistério revelados no livro. Quanto a este, podemos situá-lo como uma fabulação do que há na Kabbalah, mas uma sensacional fabulação que não remete a ser visualizada como uma sensacionalista fabulação, pois está a imensamente tocar em Verdades Espirituais Elevadas. A rebeldia satânica torna-se satânica rebeldia a cada página e explora temáticas e roteiros de novos mundos os quais os seres humanos que abaixam a cabeça para um suposto Deus Único, Único Deus, sequer tencionam percorrer ou imaginam existirem à margem de toda diária caminhada.


O Satan de Milton, o ícone inconscientemente criado de incomum modo por Milton, é um sedutor. Sedutor nosso que nos inspira a uma rebeldia positiva e não destruidora de toda coisa em redor que não esteja em paridade com o nosso Eu. No livro fica clara a intenção dele, que não é a de destruir o Gênero Humano, mas a de libertar este das mentiras tirânicas que, sim, podem advir do Alto de onde Ele Caiu. Somente nas incomuns entrelinhas de O Paraíso Perdido, leitores virtuais, poderemos chegar ao Satan de Milton puramente idêntico ao Satan que pulula em nosso interior. Ora, cada um de nós possui um Satânico Ser em potencial! Ou vocês acham que estamos apenas fadados a sermos ovelhinhas obedientes aos ditames de uma arcaica sociedade que de sociedade decadente está, pouco a pouco, passando a ser decadente sociedade? Isso aí que em vocês desperta à leitura destas palavras é Satan, o VOSSO SATAN INTERNO. Ele é amigo. Ele é bom. Ele é fiel. Amigo, bom e fiel porque está dentro de cada um de vocês e não a ser adorado em um altar ou a ser o “Pai Maior” de todos os seres e de todas as coisas. Ele é Amor, também, mas um Amor que apenas cada um de vocês pode determinar em vossas próprias almas. Estas não são as palavras de um satanista, mas de um Ser que compreende o Seu Satan. Este Inominável Ser aqui não é um satanista e nem pretende ser um satanista. Este Inominável Ser aqui é um Satânico Ser, autêntico e isento de arcaismos preconceituosos e irritantes. A segunda parte deste artigo, agora a encerrar-se, pode parecer como uma louca investida de um Louco Ser adorador de Satan. Mas, com qual tipo de sanidade este Inominável Ser poderia aqui falar de um poeta incomum, incomum poeta, como John Milton? Com qual tipo de sanidade este Inominável Ser aqui poderia falar de um livro incomum, incomum livro, como O Paraíso Perdido? A Poesia, a Deusa Poesia, é uma Louca e todo poeta é louco, despertando em si mesmo o Seu Satan.


Não sou adorador de Satan, leitores virtuais. EU SOU SATAN PARA MIM MESMO. Cada um de vocês pode ser Satan para si mesmo, como eu sou Satan para mim mesmo, sem declarar isso como uma bandeira e também dizer isto: EU SOU SATAN PARA MIM MESMO. A leitura de O Paraíso Perdido despertou isso em mim e pode despertar o mesmo, ou mais, em cada um de vocês. É o popularíssimo “Conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates (470? a.c. - 399 a.c.), um senhor de si mesmo, literalmente, um Satan, conforme meu particular pensamento. Livros incomuns de poetas incomuns, incomuns livros de incomuns poetas, fazem isso com os leitores incomuns, com os incomuns leitores, que todos nós podemos ser. Ou você, dentre todos a terem lido esta segunda parte deste artigo, é adepto da fria leitura da fria poesia de Olavo Bilac (1865-1918) e de todos os parnasianos em geral que a nada instigam e despertam além de um profundo sono e um profundo tédio?


Na terceira parte deste artigo, veremos o incomum Álvares de Azevedo.


Links:

Works By John Milton

John Milton - Poems

The Essential John Milton





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