Sobre Machado de Assis


(...)Tinha me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...


Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra de dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno.(...)”


in: Dom Casmurro

Ed. Abril

pag. 71




Inomináveis Saudações a todos.


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos, tanto pela crítica especializada em sua obra quanto pelo público leitor da mesma, sendo parte deste restrito público este Inominável Ser que vos fala. Digo restrito pois, mesmo sendo um dos ícones da Literatura Brasileira, fica o autor relegado à poeira das estantes das livrarias, ao lado de tantos outros autores clássicos brasileiros como Gonçalves Dias (1823-1864), Castro Alves (1847-1871), Álvares de Azevedo (1831-1852) e José de Alencar (1829-1877). Para terem uma idéia do panorama atual da Literatura Brasileira em meio ao público leitor, A Menina Que Roubava Livros, de Khaled Hosseini (1965- ), ocupa há mais de tantas semanas o posto de livro mais vendido no Brasil... Nada aqui de xenofobia no comentário feito, mas apenas a constatação de um fenômeno que, também, deve ocorrer em Portugal, de um modo diferenciado ou não; mas, apenas os que residem em Portugal podem mesmo dizer se há uma maior valorização dos autores nacionais, antigos e contemporâneos do que dos autores estrangeiros. Cabe aqui, no entanto, observar que nem as crianças, que eram, teoricamente, destinadas a guiarem-se pelas letras de Machado de Assis nas escolas, sequer lêem-no com regularidade; quando lêem, apenas a superfície de seus livros é explorada. Falando por mim, em minha escola primária e na secundária, não cheguei a ler Machado de Assis e apenas comecei a conhecer sua obra há, pelo menos, oito anos. E é da obra machadiana que este tópico tratará, uma relíquia literária inestimável e imprescindível para todos os amantes e admiradores da Literatura.


Acima, lemos a famosa apresentação do espanto do personagem Bentinho diante dos “olhos de ressaca” de Capitu, cena presente no capítulo 32 de Dom Casmurro (1899), um dos grandes clássicos da Literatura Brasileira e Mundial. É famosíssima a dita obra devido ao mistério que ronda a possível, ou não, traição de Capitu com seu amigo Escobar, uma genial análise psicológica que permite aos leitores uma viagem pelo insano mundo de revoltos, amarguras e angústias de Bentinho, o narrador da história. Dom Casmurro é um daqueles inesquecíveis livros que, quando lidos uma vez, impregnam-se n'alma de um modo intensamente vibrante e a impressionar-nos por sua atualidade e vitalidade e força de intensa expressão. É um livro que fala da crença em uma traição, a de Capitu, mas, que, ao mesmo tempo, mais insinua do que acusa a personagem, já que o ponto de vista de Bentinho, o narrador, com o seu machismo típico do século dezenove, é o que prevalece em todas as páginas dedicadas ao destilar de seu veneno contra aquela que amou e afogou-lhe tanto nas maravilhas da carne satisfeita quanto nos abismos da desconfiança traiçoeira crescente agressivamente com o passar dos anos. Ciúme, ódio e uma tristeza sombria e insólita, desértica e, ao mesmo tempo, cativante, fazendo-nos identificar-nos com o narrador, permeiam toda a extensão estética do desenvolvimento narrativo do livro. Algo de Dom Casmurro transmitiu-se para a vida real, como bem observa o acadêmico Sérgio Paulo Rouanet (1934- ) ao falar do conteúdo das cartas dele para um amigo de adolescência, Salvador de Menezes Drummond Furtado de Mendonça (1841-1913):



(...)Tem um trecho de 'Dom Casmurro' em que ele disse que queria atar as duas pontas da vida: a do Bentinho de Matacavalos e a do Dom Casmurro traído e amargurado do final da vida. Ele manda construir uma casa no Engenho Novo que era uma réplica da de Matacavalos, e diz que tentou atar as duas pontas da vida, mas não conseguiu. Tenho impressão de que, com as cartas, o leitor talvez consiga fazer isso: atar as duas pontas da vida de Machado de Assis.(...)”



O fascínio exercido pela estética machadiana no meio acadêmico brasileiro é bastante grande, o que demonstra a qualidade imortal de sua obra, de finíssimas ironia, qualidade, profundidade e riqueza textual. Rouanet se referiu, acima, a uma das cartas que será publicada pela Academia Brasileira De Letras (da qual foi um dos fundadores em 1897 a ocupar a 23ª cadeira que, atualmente, esteve em disputa entre vários candidatos atualmente após o falecimento de Zélia Gattai (1916-2008), que foi casada com outro grande escritor brasileiro, Jorge Amado (1912-2001) este ano, em um livro que ele organizou e que contou com a colaboração das pesquisadoras Irene Moutinho e Sílvia Eleutério, uma das diversas homenagens ao autor no ano em que se completam cem anos de seu falecimento. Salvador de Mendonça e Machado de Assis, junto com Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854-1909), irmão do primeiro e idealizador inicial do projeto, foram os fundadores da ABL; Lúcio de Menddonça, como teve a idéia original, é considerado O Pai da instituição. Palestras, encontros, leituras de trechos de suas obras em livrarias e a 6ª Festa Literária De Paraty (FLIP), de 2 a 6 de julho foram a ele dedicadas até o momento; e ao longo do resto do ano, também serão feitas muitas outras homenagens. Edições novas e revistas de seus livros estão sendo lançadas por diversas editoras, contribuindo para o não-esquecimento de sua literatura (e de sua poesia, também rica em oníricos detalhismos esteticamente singelos) da parte do público leitor de bom gosto, como os escritores Philip Roth (1933- ), considerado o maior autor vivo do mundo, e o cineasta Woody Allen (1935- ), fãs assumidos do autor.


A estética machadiana rompeu com o Romantismo que, até então, imperava, vindo a ser uma das representantes do movimento denominado Realismo, o qual teve início na França no ano de 1857 através da pena de Gustave Flaubert (1821-1880) que realizou Madame Bovary, publicada no dito ano. No Brasil, o Realismo foi inaugurado com a obra Memórias Póstumas De Brás Cubas, de Machado de Assis, e O Mulato, de Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913), no ano de 1881. Ao lado de Machado e Azevedo, contam-se na Escola Realista Brasileira os escritores Raul d'Ávila Pompéia (1863-1895), Adolfo Ferreira Caminha (1867-1897), Domingos Olímpio Braga Cavalcanti (1860-1906), Manuel de Oliveira Paiva (1861-1892), Joaquim José de França Júnior (1839-1890) e Herculano Marcos Inglês de Sousa (1853-1918). Mas, tal distanciamento com a estética romântica, em Machado, já se definia muitos anos antes nele, como diz Silviano Santiago (1936- ):



(...)Em gesto admirável, Machado de Assis precede sua estréia na ficção nacional por um libelo contra a estética romântica, tal como posta em prática no Brasil por escritores de nomeada, como José de Alencar e Gonçalves Dias. Refiro-me ao ensaio 'Instinto de Nacionalidade (Notícia da atual literatura brasileira)' (1871), que precede 'Ressureição' (1872), primeiro romance de nosso autor. O local de publicação do libelo deslocou-se do Rio de Janeiro para a ilha de Manhattan, já que saiu no periódico 'O Novo Mundo', onde colaborava o poeta Sousândrade, então no exílio voluntário. Na primeira espiadela, dois adjetivso sobressaem: 'atual', no subtítulo do ensaio, e 'novo', no título do períodico. A atualidade da literatura brasileira passa a exigir outra atitude. Face ao velho mundo, os americanos de norte a sul são finalmente os únicos donos do próprio futuro. Compete a nós brasileirosdar forma à nação.(...)”


O rompimento se deu bem antes, como vemos, o que somente veio a acrescentar originalidade ao processo da escrita e do poetizar do autor de modo a ser bem diferenciado do romanticismo imperante à época. Machado rompeu limites estético-literários e compôs uma senda de novos alcances para a Literatura Brasileira. Um tanto de dito alcance será aqui abordado neste blog, com o apoio de livros e revistas especializadas em Literatura, publicadas em jornais impressos, que tenho à disposição, conteúdo o qual apresentarei, resumidamente, durante o desenvolvimento dos posts as nuances da obra machadiana, dividindo de um modo tranqüilo a elaboração de uma visão da mesma, a partir do que aqui neste artigo introdutório foi até vós todos guiado. Será uma visão concentrada na obra literária e poética do mesmo que não possui apenas uma via de orientação, mas múltiplas interpretações, variações, comunicações e estabelecimentos de opiniões.


Saudações Inomináveis a todos.



BIBLIOGRAFIA


Casmurro, Dom. Machado de Assis. Coleção Livro Vivo (Revista Caras). São Paulo: Abril Cultural, s/d.


Literatura Brasileira, Estudos de. Douglas Tufano. 4ª Edição Revista E Amploada. São Paulo: Moderna, 1988.


O Globo, Jornal. Retratos de Machado – Especial do Caderno Prosa E Verso. Rio de Janeiro, Sábado, 14 de junho de 2008.


Links:

Machado de Assis - Wikipédia

Machado de Assis - Releituras

Machado de Assis - Pensador

Jornal de Poesia - Machado de Assis

Machado de Assis.net

Academia Brasileira De Letras - Machado de Assis



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