A Primeira Risada É Sempre A Mais Deliciosamente Caótica


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais.


Os vilões do Cinema, sem exceções, sempre foram os representantes das monstruosidades que residem em nossos interiores e que permanecem extensivamente controladas pelos variados recursos morais que utilizamos para a nossa diária sobrevivência. Em questões de libertários momentos e libertários desenvoltos saltos arriscados por sobre infinitos abismos, os vilões do Cinema são os admiráveis personagens que não temos coragem de interpretar ou de Ser. Em pontos obscuros, talvez, de nossa consciente forma de agir, de nossa inconsciente forma de reagir, tenhamos exatas e pequenas, grande e inexatas, noções do quanto podemos ter de vilanias em nossos internos parâmetros existenciais. Um Darth Vader, um Jason Voorhees, um Freddy Krueger, um Agente Smith, um todo de vilões, que agem foram das normais regras morais de nosso dia-a-dia, povoam as nossas imaginações, os nossos sentidos, os nossos instintos, queremos ser como eles quando o abismo do ódio e da revolta nos alcança ou quando perdemos todas as esperanças ou quando somos O Abismo Nosso e nunca tivemos esperanças de sermos efeitos de um grande inconseqüente jogo denominado humano viver... Acima de todos os vilões cinematográficos, eternamente determinado, fica o Coringa de Heath Ledger, um Abismo, um Ser que arremessa as suas esperanças em provar que até o melhor dos seres humanos, bem-intencionado, livre de desvios morais, honesto e servo da Verdadeira Justiça, como Harvey Dent, pode tomar o rumo correto em direito ao mais correto alcance do fundo de seu Abismo no Abismo Do Mundo. Mas, isso é muito simples para definir-se a admiração, o carisma, o terror, o pavor e o medo que o Coringa de Heath Ledger nos inspira. E o ódio por ele? Alguém que assistiu ao filme consegue odiar, sentir repulsa, pelo Coringa? Como todo vilão de diversos filmes anteriores, o Coringa de Batman - O Cavaleiro Das Trevas, pode ser posicionado acima, abaixo ou além da imensa galeria deles no Cinema?


Não, o Coringa está além do além, é um intenso e irreprimível vórtice de elementos transformantes de uma realidade. Antes dele, no filme, Gotham City era um dejeto de corrupções e de criminalidade que nem mesmo o Batman conseguia diminuir; com a sua entrada no esquema das coisas sujas da cidade, o dejeto organizou-se todo em direção ao objetivo do puro caoismo, que não foi proposital, que não foi casual, que não foi obra de simplificação e simplismo criminosos. Um detalhe importante é a direção que o Coringa dá ao Caos, ao Deus Caos, já instalado no organismo psicossocial da cidade, um amontoado de pessoas entregues a um estado de vivência e convivência com o cheiro da morte a todo instante. O Coringa não é o dano direto e nem é o ponto central causador da intensificação do Caos em Gotham City; sendo O Cavaleiro Do Caos, ele é apenas o condutor de uma situação que, há muito, já se insinuava na organização existencial da cidade. Agindo como um furação sem propósitos e sem planejamentos, em genial trajetória contrabalançando em guerra todos os tipos de poderes envolvidos nosinícios, meios e fins dos acontecimentos, poderes de rascunhos morais, poderes de rascunhos amorais, poderes de rascunhos sociais, poderes de rascunhos econômicos, poderes de rascunhos personalísticos, poderes de rascunhos despersonalizantes, poderes de rascunhos estatais. Rascunhos, leves rascunhos, pesados rascunhos, em todos os personagens vividos com dignidade e identidade perfeitas por cada ator, rascunhos de sentimentos, rascunhos de personalidades, rascunhos de temperamentos, rascunhos de finalidades, rascunhos de ações, rascunhos de reações. O Ser completo em personalidade, temperamento, finalidades, ações e reações é o Coringa, um Deus jogando com as possibilidades de criações quase indivisíveis e infindas de situações caóticas, movendo peças a seu legítimo prazer de verter a risada mais caoticamente perfeita na cara da podridão social que, repito, ele apenas direciona para que exploda pela cidade como as suas bombas e não a causa de uma maneira direita, pois ela é tão parte de Gotham City quanto o solo pisado por todos os habitantes dela. Com um sarcasmo no rosto, um sorriso tenebroso, um lápis de mágico tecido de inspirações aos de mente criativa, um arsenal de bombas e armas utilizadas com eficiente inteligência, O Gênio Do Crime Coringa efetua um grande trabalho de completo e complexo alinhamento existencial do social em questão hiperdimensionado pelo filme.


Qual é o trabalho social realizado, melhor do que qualquer ato de pura demagogia política e assistencialismo barato e populismo mediocrizante? Não sendo um demagogo político, o Coringa cumpre a missão de determinar o quanto se está distante, neste nosso mundo real que é o mesmo mundo visto no filme, de uma verdadeira solução para o problema da violência. Não sendo um assistencialista barato, o Coringa auxilia na reflexão, diretamente exercida na amplitude de nosso mundo real que é o mesmo mundo visto no filme, inerente ao problema do Terror nascido das pequenas e das grandes violências, sejam elas praticadas por indivíduos particulares, grandes corporações, exércitos e poderes que agem em nome do Estado, seja em qual país for, já que o sentido de O Cavaleiro Das Trevas não se concentra apenas nos Estados Unidos Da América, não é um filme bairrista, é um filme globalizado já que em qualquer lugar do mundo, de um beco parisiense às povoadas ruas chinesas e às favelas brasileiras, enquanto houver a pressão e a opressão do crime haverá o motivo da discussão acerca do quanto vale o alcance real do combate ao mesmo. Não sendo um populista medíocre, o Coringa interage com as tensões e repressões do povo qual um psiquiatra que exerce medidas eficazes para que abram os olhos para a sua doença, uma doença que é a mesma do nosso mundo real que é o mesmo mundo visto no filme, pois a Humanidade é uma Doente, nós, seres desumanos, somos doentes, O Crime, O Deus Crime, que nos sufoca mais do que qualquer tirano da História sufocou um povo, que trazemos em nós, pois todos podem se tornar, em iguais medidas, assassinos, estupradores e ladrões, de farda ou sem farda, de terno e gravata ou de bermuda e chinelos, sem exceções, A Doença é grave, A Doença é bem vista, mas permanece negada pela imensa humana maioria refém das fantasias que dizem “amanhã será um dia melhor”, “Deus vai nos ajudar”, “a Justiça fará o seu papel”, “o crime não compensa”. No filme, todas essas estupidezas são destruidas pelo Caos movido generosamente pelo Coringa. O amanhã é recheado pelas visões de corpos desmembrados e escombros, sangue pelas ruas, choros e lágrimas mui vertidas. Deus é o palhaço no filme e não o Coringa, que assume as qualidades de Todo-Poderoso e toma as rédeas do curso dos acontecimentos de maneira soberana e decisiva. A Justiça, como sempre, é uma piada inútil contada por homens que estudam anos a fio apenas para se tornarem mais inúteis ainda, com suas leis e sentenças risíveis que JAMAIS concederão verdadeiras punições a todo e qualquer criminoso, já que são leis e punições sempre ao lado dos poderes maiores das nações, poderes ligados ao conservadorismo e ao capital, ao invés de o serem em prol, absolutamente, dos povos residentes nos territórios das nações. O crime compensa, sim, tanto compensa que o Coringa é um prova de homem determinado a ser um tipo de criminoso mais eficiente do que qualquer criminoso de nosso mundo, seja este disfarçado de presidente da república ou de juiz do Supremo Tribunal Federal, disfarçado de policial ou de oficial do Exército, disfarçado de bom homem ou de grande religioso, enfim, a eficiência daquele é que as suas convicções não estão dentro de convicções inscritas em cartilhas ou livros ou computadores ou papéis avulsos em escrivaninhas. Sem a convicção planejada e pleno em sua não-convicção não direcionada, a convicção de um destruidor dos plenos planos de ordenações e ordenhações de rebanhos dos demais, o Coringa seria, aqui, em nosso mundo real que é o mesmo mundo presente no filme, o vencedor de tudo e de todos, que nem saberiam o que fazer contra ele, Batman existe apenas na ficção.


A possibilidade do Coringa em nosso mundo real que é o mesmo mundo do filme: sim, ela existe, sim. Nos concentremos aqui no Rio de Janeiro, “A Cidade Maravilhosa”, “A Cidade Mais Linda Do Mundo”; as maravilhas de agora são a do sangue a escorrer aos píncaros e a linda paisagem ultimamente é preenchida de corpos desovados nos lixões vários de seus bairros e matas. Vivemos sob a mira, nós, cariocas, que não pegamos em armas de fogo, do Poder Estatal que comanda uma Polícia (Civil, Militar, Federal, Força Nacional e a de cada uma das Forças Armadas) toda corrupta e toda falida, capaz de cometer chacinas como a da Baixada Fluminense, há mais de um ano atrás, na qual crianças foram assassinadas com balas na cabeça; e do Poder Paralelo (Comando Vermelho, Terceiro Comando, Amigos Dos Amigos, Milícias e outras organizações criminosos que são, até agora, desconhecidas, mas que existem) constituído por homens que são impiedosos, covardes e cruéis tanto quanto aqueles que, ao lado do aparelho estatal, os combate, capazes de porem como refém toda a cidade como algumas vezes já puseram através de atentados seguidos com ônibus sendo queimados lotados; concluindo, vivemos sob a mira de elementos que, vulgarmente, na linguagem do povão, são farinha do mesmo saco, lados igualitários da mesma moeda, o lado da moeda enegrecido do Duas-Caras. Tiroteios, casos de corrupção policial, assassinatos de crianças por bandidos, assassinatos de crianças por policiais imbecis despreparados, invasões de favelas, assassinatos de moradores de favelas por merdas fardadas do Exército, Secretário De Segurança ineficiente sempre com aquele ar frio e hipócrita e distante no rosto e no olhar, Prefeito retardado sempre conectado à Internet, Governador conivente com o Caos crescente no solo carioca sempre a viajar... Um Coringa, com um lápis, palhaços como capangas que facilmente conseguiria, um arsenal mais arrojado do que o dos policiais e dos bandidos e das Forças Armadas, muita disposição, gosto pelo espalhar do Terror e o objetivo de provar que o Rio de Janeiro pode ser tornado uma cidade mais anárquica do que já é, uma Anarquia Absoluta, surgindo, primeiramente, derrubando com trezentos quilos de dinamite a Ponte Rio-Niterói em seu horário de maior movimento e matando centenas de pessoas. “Ataque terrorista na Ponte Rio-Niterói mata...”, noticiaria O Globo no dia posterior e o Terror, o Deus Terror, em um povo tão sensível como o nosso, se instalaria em todo o Brasil; o Secretário De Segurança diria, frio e hipócrita e distante:”Estamos investigando...”; o Prefeito diria, retardado e conectado: “Isso é um ato desumano e completamente condenável!”; o Governador, conivente e viajante, diria: “Esses monstros irão pagar pelo que fizeram!”; o Presidente Da República, claro, se omitiria, ele não sabe nunca de nada, como nós sabemos; enquanto as autoridades falassem, as Polícias se movimentassem e até as Forças Armadas fossem cogitadas para entrar na luta contra o misterioso causador do atentado, este, um Coringa, começaria a agir nas sombras, se aliando aos milicianos e aos traficantes, fazendo um jogo duplo para depois jogá-los uns contra os outros, prometendo auxiliá-los a destruir o Poder Estatal e entregar a cidade nas mãos deles. Tudo seria muito rápido, os quartéis das Forças Armadas, primeiramente, seriam atacados por todo o Estado, pois a genialidade do inimigo supera a de todas as amebas fardadas que dizem servir para a proteção da nossa pátria! Soldados corrompidos se tornariam palhaços do tal Coringa! E as Polícias, o que dizer delas, formadas por mais analfabetos ainda, imbecis que apenas sabem matar e matar e matar e não pensar? Um Coringa, dando risadas e bocejando, mataria policiais aos montões, arregimentaria outros tantos montões para o seu grupo de palhaços, pois corromperia os já há muito corrompidos dentro dessa corporação; os prédios da Polícia Federal, todos implodidos pelo Estado, em ações silenciosas, pegando à traição e de surpresa, matando muitos palhaços federais que adoram um espetáculo e acolhidos seriam outros como palhaços do Coringa! A Força Nacional, coitada, dizimada por completo, trata-se, afinal de um força polícial incorruptível, de homens e mulheres de outros Estados, livres da contaminação com as mazelas corruptoras cariocas; as cabeças deles, destes agentes incorruptíveis e honestas, seriam jogadas na Baía de Guanabara, na Lagoa Rodrigo de Freitas e no lixão de Gramacho! O Estado do Rio de Janeiro amedrontado! O Brasil aterrorizado! A Cidade Do Rio de Janeiro tomada pelo Poder Paralelo! A mágica do lápis seria feito pelo Coringa no Sérgio Cabral, no José Mariano Beltrame e no César Maia... O Coringa, assim como surgiu, desapareceria de cena, deixando aqui, no Rio de Janeiro, as forças de segurança destruidas e os bandidos e milicianos e seus palhaços bem fortalecidos... No meio, ficaríamos nós, o povo que não pega em armas... Dando risadas, o Coringa desapareceria e o Caos, O Deus Caos, por ele erguido como Soberano, não apenas na Cidade Do Rio de Janeiro, como no Estado do Rio de Janeiro, teria continuidade em uma guerra pelo poder total político-social entre os grupos acima listados que o apoiaram e seguiram em sua cruzada de desestabilização!


A Conquista Do Rio de Janeiro pelo Poder Paralelo ocorreria em uma semana, pois, aqui é o Brasil, leitores virtuais, não os Estados Unidos, no qual, certamente, um Coringa teria que ter a paciência de aguardar cinqüenta anos apenas para conquistar um quarteirão da cidade de Los Angeles ou de New York. E os políticos, até o nosso presidente, o Luís Inácio Lula da Silva, fugiria do Brasil, e o povo comum ficaria entregue, então, ao Terror em âmbito nacional, apesar de que dito Terror apenas se focaria no Rio de Janeiro. Ficção, no entanto, tudo acima, ficção, pura ficção... E se não for ficção e estivermos perto de termos um Coringa no Rio de Janeiro ou em São Paulo ou em qualquer outra cidade do mundo, este nosso mundo que é o mesmo mundo do filme? Se não for ficção, torça para que o Brasil construa uma bomba atômica, pois, sem um Batman, apenas uma destas poderia parar, aqui, em nossa realidade que é a mesma realidade do filme, um Coringa.


O Verdadeiro Cinema é o que te leva a imaginar, a ir além da experiência cognitiva do assistir um filme. Para sempre, vou me lembrar da atuação infinitamente clássica de Heath Ledger como O Coringa Definitivo, uma genial coroação para um genial ator que atuava com a Alma, com todo o Ser, com todo o conjunto de talentosos recursos que possuía à sua disposição. A intensa inspiração a mim afetando, proporcionada pelo filme, proporcionada pelo Coringa, devo aqui contar: eu me vi como o Coringa, como muitos de vocês, também, devem ter se visto. Parece simplório, mas foi um estado de consciência animalescamente instintivo e primitivo que, ironicamente, apesar da Psicose dele, foi lógica. Lógica quanto a mim, já que a simetria matemática dos atos dele formaram uma positividade que se fez eficiente no desdobrar e distorcer e revirar ao avesso Harvey Dent. É possível um Harvey Dent neste nosso mundo que é o mesmo mundo do filme? Não, e veremos o porquê no próximo post.


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais (e qualquer semelhança entre os fatos ficcionalmente narrados acima e o fatos do mundo real diariamente vistos por nós é mera coincidência).


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Heath Ledger

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