A Perfeição De Um Caótico Mundo Fadado A Enlouquecer


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais.


Pela primeira, em uma verdadeira imersão no que a tela de cinema nos proporciona, adentrei existencialmente em um filme como quem nada imensamente adaptado a uma calma piscina de calmas águas que agitadas são pelas braçadas de intensos nadadores. Em Batman – O Cavaleiro Das Trevas, a sensação é de um pesadelo, caótico pesadelo, realizador de uma tensa, instigante, alucinada, constante, imprevisível, angustiante, tenebrosa, terrífica, torturante e determinado navegar em mares reais, é a nossa caótica realidade de tantas e imensas perdas e danos diários que está no filme. Este não pode ser classificado como um filminho estúpido de super-heróis, no qual o visual caprichado no ridículo excesso de cores (mais parecendo um desfile de escola de samba, como Batman Eternamente) e no ridículo excesso de efeitos especiais (tal qual certos filmes, como Speed Racer); nem esta no mesmo patamar de outras anteriores adaptações de personagens dos Quadrinhos para as telas do Cinema, como Justiceiro, X-Men, Homem-Aranha, Superman, Quarteto Fantástico, Motoqueiro Fantasma, Blade e tantos outros que possam ter sido adaptados e muitos outros a mais que serão adaptados. Batman, este filme do Batman, que muitos críticos já estão denominando como O Filme Definitivo, apresentando O Batman Definitivo, apresentando O Coringa Definitivo, é o primeiro clássico da História Cinematográfica nascido de uma mídia que o cinema hollywoodiano não preza muito. Se as mentes dos senhores daquela arcaica Academia abrirem-se para o que o filme consistentemente aborda, o que o filme é sem subterfúgios ou mascaramentos de roteiro que apaguem a visão da crueza humana, o que o filme sintetiza e explora, enfim, em suas duas horas e meia, uma revolução se operaria naquela também arcaica premiação do Oscar, uma sacudida em uma festa que confesso não ter assistido mais desde que o blockbuster Senhor Dos Anéis – O Retorno Do Rei ganhou aquela profusão de estatuetas.


O Cavaleiro Das Trevas não é um blockbuster; chamar o filme de blockbuster é até tolo, hilariante e vazio. O diretor Christopher Nolan, que já demonstrara toda a sua genialidade em Memento, artesanalmente moldou um capítulo de furiosa capa estilística vitalizadora e renovadora de um homem em busca de justiça conforme uma determinada moral própria captada por um conjunto de básicas regras gerais e específicas que não podem ser ultrapassadas. Douradas regras que o diretor, junto com o seu irmão Jonathan e o roteirista David S. Goyer põem na mesa de jogos de um ambiente fadado ao caos, como este nosso ambiente real, que, como visto em muitos posts anteriores deste blog, é um ambiente mais de bestas e de feras falsamente civilizadas do que de seres devotados ao humano evoluir e à humana ordem, em todos os sentidos possíveis de captação desta afirmação. A tensa execução do filme, a plena hiperrealidade extensivamente cabal do filme, apocalipticamente centralizando-nos em uma representação fiel da nossa realidade devoradora de nós mesmos conforme os passos diários rumo aos abismos que estamos escavando, entorpecem nossa mente, arriscam saltos em nossos Eus, exprimem o terror que nos acompanha, o terror da morte, o terror do medo, o terror do desespero, o terror do caos. É a representação do Caos, Esta Força Primordial, o Coringa, Cavaleiro Do Caos, um Ser amoral, sem regras, isento de culpas, apreciador de mágicas com lápis, nada engraçado, muito assustador, delirantemente carismático, eficientemente provocador de todos nós com uma pergunta que me assola: este nosso mundo está tão longe de assistir ao aparecimento de um Coringa que revire tudo e traga-nos O Verdadeiro Caos, um Caos acima do que Osama Bin Laden foi capaz de criar com o 11 De Setembro; um Caos acima do que o PCC criou na cidade de São Paulo há quase um ano atrás com uma série de atentados contra “inocentes” e culpados”; um Caos acima do que o Comando Vermelho aqui na cidade do Rio de Janeiro provoca; um Caos acima do que a Polícia Corrupta E Suja Do Brasil provoca; um Caos acima do que o arcaico e inútil Exército Brasileiro provoca quando chamado a atuar; um Caos acima do que o ETA provoca; um Caos acima do que a Al Qaeda provoca; um Caos acima do que os Estados Unidos, sede de Hollywood, provoca no Iraque, provocou no Afeganistão, provocou no Vietnã, provocou no Japão e provoca no mundo todo desde que se assumiu como um falso Cavaleiro Da Liberdade Do Mundo?


Não estamos distante do surgimento de um agitador revolucionário como o Coringa, Christopher Nolan, seu irmão Jonathan e David S. Goyer revelam-nos isto no filme, um revolucionário filme esteticamente capaz de me fazer esquecer todos os anteriores filmes que assisti em uma sala de cinema. O Coringa, um Ser danoso, um Ser danado, é uma Força Da Natureza, uma Força Maior Da Natureza; o filme é dele, não do Batman, pois o fenomenal Heath Ledger concebeu e foi O Coringa, um bizarro Demônio enlouquecido que propiciou um atormentado passamento e ultrapassamento, ao mesmo tempo, de esquemas certeiros e atitude bem controladas. A Anarquia, A Deusa Anarquia; O Caos, O Deus Caos; A Violência, A Deusa Violência; A Morte, A Deusa Morte; A Guerra, A Deusa Guerra; O Ódio, O Deus Ódio; O Desespero, O Deus Desespero; O Medo, O Deus Medo; A Desgraça, A Deusa Desgraça; Deusas e Deuses alimentados pela estupidez ignorante e boçal humana, que cada vez mais faz o sangue escorrer pelas nossas calçadas, estão no filme, que nos faz refletir, meditar, chegar ao ponto de tornar-nos Um com toda a seqüência poderosa e intensa de acontecimentos grandiosos nele presentes. O choque é constante, o controle é preciso, a cadeira quase não me suportou e muitos de vocês devem ter sentido o mesmo; perigosamente concedemos durante o filme uma absorção nossa em seu intenso efeito de nos roubar a visão do tempo/espaço em nosso redor e de nos consagrarmos ao tempo/espaço próprio dele. Na sessão em que o assisti, ontem, quinta-feira, 24 de julho de 2008, o silêncio imperou a maior parte do tempo; adolescentes que pensei que gritariam e dariam risadas idiotas calaram-se, o que me surpreendeu, atestando todo o dito acima acerca da atmosfera causticante e incômoda do filme. Ao fim da sessão, no entanto, apesar da concentração de todos os demais presentes, apenas eu o aplaudi... Sinal de que não gostaram do filme por ser longo demais? Não, apenas incômodo a revirar-lhes os estomâgos. Sinal de que não compreenderam o filme por ser complexo psicologicamente demais? Não, apenas não pensaram em aplaudir devido ao choque que ele proporciona ao Ser. Por que eu o aplaudi, sozinho, então? Apenas me vi em todos os momentos do filme, em cada um dos personagens, tanto em Bruce Wayne quanto em Harvey Dent e James Gordon e Rachel e Coringa.


Bruce Wayne, O Cavaleiro Das Trevas. Harvey Dent, O Cavaleiro Branco. James Gordon, O Cavaleiro Da Lei E Da Ordem. Rachel Dawes, A Amazona Branca. Coringa, O Cavaleiro Do Caos. Representantes dos nada heróicos seres humanos e que no filme também não são heróis, pois são tão humanos quanto cada um de nós. A simetria equilibrando as atuações de cada um deles é como um jogo letal de mata-mata psicológico e literal, a latente espetacularidade dos momentos psicossociais, o “trabalho social” que o Coringa, à certa altura do filme, faz com que um refém diga, é o das provas de quem pode cair mais e quem pode suportar os acontecimentos todos sem cair. Mas, não é tão simples, há um joguete por trás que quase não é captado, e esse joguete é o de que, bem lá no fundo, eles e todos no filme, como nós, pensamos que somos algum tipo de heróis, tanto fazendo o denominado “Bem” quanto o denominado “Mal”. O Coringa mesmo, aos olhos mais atentos, oculta um determinado idealismo heróico conturbado e distorcido por “querer provar algo”, como ele mesmo diz; mas, poucos olhos podem notar essa ênfase interior no âmago dos personagens, mas nós o notamos em nós mesmos. Ou não notamos? Ou fingimos que somos apenas figurantes do filme da realidade? Ou escapamos e nos escondemos em uma sala de cinema para que um filme possa nos desviar da humana realidade? Leitores virtuais, após este filme, digo a todos vocês que a era dos filminhos medíocres que divertem e apenas são feitos para arrecadar dinheiro acabou, daqui para a frente o que se realizará é uma cada vez mais arrebatadora seqüência de filmes hiperrealistas, que vos deixarão incomodados e eu me delicio com isso, pois como o Coringa eu adoro ver o circo pegar fogo! Muitos de vós foram assistir o filme pensando em um mero divertimento cinematográfico como tantos outros que já tiveram e nem leram as críticas publicadas em revistas antes do lançamento mundial dele; desavisados, encararam a vós mesmos na telona, cada um de vós lá na telona, na pele do Cavaleiro Das Trevas, do Cavaleiro Branco, do Cavaleiro Da Lei E Da Ordem, da Amazona Branca, do Cavaleiro Do Caos. Vós todos, leitores virtuais, pensando que assistiriam a um blockbuster qualquer, uma merda como tantas merdas lançadas por Hollywood anualmente apenas para fazer dinheiro, foram pegos n'alma, sentiram o gosto do terror em vossos Seres de modos inescapavelmente lancinantes e, então, podem agora saber o que um morador da Rocinha ou de Capão Redondo sente quando a merda de um policial o espanca, tortura e mata, impondo terror no local onde ele reside; quando a merda de um miliciano ameaça, expulsa, espanca e mata aqueles que não se integram ao seu “poder de defesa”, inspirando um terror típico de áreas dominadas por “coronéis”; quando a merda de um oficial do Exército manda prender, espancar e executar moradores de morros e favelas apenas porque está entediado, além de patrulhar a área com autoritarismo invasor da privacidade alheia, sendo agente do terror que empunhado é por cada merda de soldadinho ao seu comando; quando as merdas dos bandidos e as merdas dos policiais seqüestram a liberdade de ir e vir, sendo o terror que diariamente mais nos acompanha; quando todos nós fechamos os nossos olhos e dormimos, em nossos leitos tendo em sonhos e pesadelos as visões do diário terror que nos acompanha.


O mundo, O Louco mundo nosso: aceitem-no, seus merdas aterrorizados com todas as várias violências nele presentes. Vocês são uns merdas e eu sou um merda por deixarmos O Terror, O Deus Terror, crescer, como o filme bem nos apresenta; e ainda nos sentimos, agora com relação aos “atos em prol da paz na forma de protestos”, que somos heróis e forma “a liga humana especial de combate ao crime e mazelas sociais”. Nós somos as mazelas sociais, seus merdas, leitores virtuais de merda, ainda não compreenderam isso? Não foi Batman – O Cavaleiro Das Trevas, o que me faz chegar a afirmar isto aqui, o filme apenas fez com que essa afirmação minha explodise em mim! O Cinema, enfim, é explorado como deve ser, fazendo com que cheguemos a afirmações abandonemos os simplismos dos “achismos”! “Acho isso”, “acho aquilo”, é o caralho, como diria Zé Pequeno! AFIRMEM, AFIRMEM, AFIRMEM, QUE O NOSSO MUNDO É LOUCO, LOUCO MUNDO, RECHEADO DE MERDAS COMO NÓS, MERDAS QUE MATAM, MERDAS QUE ESTUPRAM, MERDAS QUE SEQUESTRAM, MERDAS QUE ROUBAM, MERDAS QUE SE ALIMENTAM DE MERDAS E ALIMENTAM A MERDAS DE SERES INIMIGOS NOSSOS QUE QUEREM MAIS QUE NOS DESTRUAMOS!!! Admitam isso, seus leitores virtuais de merda, seus merdas de leitores virtuais, ou enfiem em vossos cus, sempre, vossos choros diante de cada crime e cada injustiça cometida em nosso mundo! Assistiram bem ao filme? Pois bem, nele, enfim, todos se admitem como MERDAS, mesmo que não digam isso abertamente, pois são seres humanos, e os seres humanos, neste atual estágio evolutivo, nesta Era Da Desgraça Contemporânea, são MERDAS, MERDAS, MERDAS!!! Admitam-se merdas como eu me admito um merda e, então, podemos pensar em falar de medidas que possam evitar que o diário caos no qual nos encontramos, pelo Brasil e pelo mundo, possa ser extirpado; mas, sei que todos vocês são acomodados, mesmo diante de todas as minhas provocações neste blog, e vão sair desta página logo que eu terminar este post sem o mínimo de coragem para assumir um estado de apequenamento, o Estado De Merda, diante do Deus Caos... Se não compreende o que faço aqui, não retorne nunca mais a este blog, imbecil aí do outro lado da telinha do computador que se acha tão “bom”, tão “perfeito”, tão “ordenado”, tão “nobre”! E não assista ao novo filme do Batman, ele não é feito para ti, mas apenas para Seres como eu que estão com os olhos BEM ABERTOS!


O Coringa aqui em nosso mundo? O Coringa no filme não poderia estar em nosso mundo? No próximo post, vamos a ele.


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais (sendo merdas ou não, após admitirem-se como merdas; não procurem meus pensamentos em qualquer filosofia já escrita, eles são meus, originais... Podem dizer o mesmo acerca dos vossos pensamentos?).


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Christopher Nolan

David S. Goyer






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