Sobre As Paixões


“Quando as paixões cessam de nos repuxar e nos largam, acontece exatamente o que Sófocles disse: somos libertos de uma hoste de déspotas furiosos.”

Platão


Déspotas da carne, uma inimiga da Razão, esta que é a mãe verdadeira do homem. Déspotas do espírito, fazendo o homem cegar-se diante das maravilhas presentes até nas mais minúsculas células da vitalidade em um pequeno grão de areia. Déspotas da existencialidade, fazendo o homem cego para as verdades virtuosas dos caminhos dos altos verdadeiros ideais. Déspotas, tanto na juventude como na velhice, que devem ser soberanamente rejeitados.


Inomináveis Saudações a todos.

Somam-se aos caminhos do homem, tanto o preocupado com as coisas do espírito quanto aquele que apenas deixa-se conduzir pelos ditames ditatoriais da existência humana, os diversos despotismos que podem fazer uma imensa vontade perder-se em rios caudalosos de impróprios movimentos interiores. Apropriando-se dolosamente do curso de tais rios, rios desvirtuantes do pensar correto, o que caminha pelo mundo sendo deste ou imaginando-se fora deste, perde toda a gravidade que o mantém erguido em sua caminhada. Se beber o vinho de Dionísio mantém um homem doado às paixões como um motor produtivo de sempre bêbedas realizações, separar-se do escudo de Atena para seguir o homem de Dionísio é enlouquecer existencialmente. O esquecimento do conhecimento jamais realizado verdadeiramente abandona a sua caminhada ao conhecimento verdadeiro que em um futuro esculpido por uma caminhada sincera nos ramos do conhecer poderia possibilitar ao homem singelamente dedicado a este. Fazer-se senhor de Atena como um supremo sábio ou senhor de Dionísio como um supremo bêbado é uma escolha do ser humano em algum momento dos grandes dias mais profundos de sua existência. Atena ou Dionísio; sabedoria ou prazer do vinho da carne: como escolher o caminho menos árduo, já que para saber é necessário escalar todas as montanhas da própria ignorância e para deliciar-se sempre com o prazer da carne é necessário desligar-se de todos os demais objetivos que fazem de um homem um verdadeiro homem?

Atena jaz no homem liberto dos déspotas furiosos. Dionísio jaz no homem escravo dos déspotas furiosos. Atena prende o homem na liberdade do conhecer nenhuma prisão para o seu poder de compreender a Realidade. Dionísio prende o homem na escravidão profanadora de sua própria razão, debilita-o por completo na negatividade do nada saber além do que a carne lhe proporciona saber. Atena reina no homem que a comporta com Nike, vitoriosa, dando a vitória a todo empreendimento moldado pelas suas mãos. Dionísio reina no homem que o comporta com Pan, sedutor, dando-lhe o prazer cego da cegueira existencial que ele imagina ser a visão pura do Todo. Atena guerreia, o homem que a dignifica é todo guerreiro, todo senhor de si. Dionísio guerreia, o homem que o dignifica é todo guerreiro, todo escravo de suas paixões. Atena coroa o homem campeão sobre as suas paixões. Dionísio coroa o homem campeão em sua escravidão centrada na carne. Atena sobrevoa o espírito do homem que a mantém soberanamente em seu modo indefinidamente rico de ser. Dionísio sobrevoa o espírito do homem que o mantém soberanamente em seu modo definido pobremente de ser. Atena e Dionísio, presentes em todo homem, presentes no Homem, combatem-se vigorosamente pelo controle do motivo que leva uma mente, um espírito, um corpo, a mover-se no mundo fenomenal. Atena e Dionísio em guerra. Atena e Dionísio em uma quase eterna guerra. Atena e Dionísio, guerreando, até a definição de qual deles deve guiar o agir, o atuar humano.

Platão cita Sófocles, o qual diz que ao fim das paixões dominando o ser humano é como se este fosse “liberto de uma hoste de déspotas furiosos”. Examinar o homem livre destes déspotas furiosos cabe aqui como o guia deste estudo, pois a hegemonia de Atena e Nike no liberto de Dionísio e Pan é uma governabilidade geradora de verdadeiras volatilidades que moldam soberanias internas. Volátil, senhor de si, senhor por pureza de integridade em seu seguro caminhar, senhor por toda facilidade em alçar-se ao direto sabor de autodominar-se, o liberto é imperador pacífico que ordena ao império de seu ser que este seja obediente ao seu subjetivar e objetivar. Contudo, a obediência do ser não é emoldurada pelo medo ao olhar do imperador, é uma obediência ciente de que deve ser fiel ao mando pacífico do império, ao mando seguramente sábio do império. Posicionar-se seguro neste império, liderando todo furioso despotismo interno, sendo imperador dos sentimentos e dos fundamentos dos sentimentos é dedicar todo o ser a realizar-se pronto para toda possível liberdade. Liberdade, liberdade verdadeira, liberdade completa, liberdade doadora de alto pensar e agir é a ação do ser que é senhor de si, do seu alvorecer como pensante na aurora da vida; do seu entardecer advindo com a maturidade da vida; do seu sempre amanhecer todo dia no qual ergue-se de seu leito ciente de que vencer toda vicissitude do caminho é poder possuir o seu alto poder de jamais esmorecer.

Todo poder advém da vitória sobre as paixões quando estas estagnam o interior, massacram o interior, corrompem o interior. Estagnação é o não lutar. Massacre é o não insistir. Corrompe-se o ser em si mesmo quando o não ser, o justo não ser escravizado por algo, o justo não ser dotado da centelha de escravização por parte de algo, o soberano não ser entregue ao baixo sentir sepulta toda inutilidade da paixão. Pode-se perceber no homem seguidor de Dionísio e Pan a mescla confusa de perturbações que o destituem de um dia descobrir a verdade de Atena e Nike. Sabedoria vitoriosa, vitoriosa sabedoria, é a do campeão sobre as suas mais inúteis paixões, pois quando estas desaparecem, O Amor, O Verdadeiro Amor, Amor a Uma Verdadeira Vida, Verdadeira Vida De Verdadeiro Amor, remete-o ao justificar-se como existente plenamente na fenomenalidade. Despotismo findado, o Verdadeiro, o excelso Verbo Do Verdadeiro, ressoa todo cantante no cântico vitorioso diário de todo vencedor de seus déspotas interiores, muito mais terríveis do que a tirania de um líder destrutivo e corrompedor como Adolf Hitler. Platão alerta, na pequena frase que inspirou esta dissertação, insinuando nas entrelinhas, o caráter destrutivista dos despotismos. Despotismos podem ser vencidos, o canto das musas da sabedoria, da Verdadeira Sabedoria, intui a todo ouvinte dele o caminho a percorrer mirando-se nos espelhos d’alma de cada um a fim de não haver o cansaço temporário que leva ao cansaço definitivo. Ânsia leva ao fim, ao despotismo, ao intempestivo modo de viver de Dionísio e de Pan, saboreando os vinhos da desordem e do caos no ser que, todo vendo-se sem ver-se abertamente desvelado em cadeias de absorções em inexatidões. No melhor dos raciocínios de seu íntimo a almejar o libertar-se dos despotismos, a carga de obras para o desvinculamento dos déspotas que gritam em si é de poderosa forma de múltiplos raios de inúmeras dificuldades tão sóbrias como a semente que pensa-se constituinte do solo mas não se funde ao solo como a raiz de uma frondosa árvore.

Toda frondosa árvore, em sua natureza de árvore, não é apenas reta em seu externo aspecto, mas dedica todo o seu existir como matéria retamente até morrer ou ser derrubada. Ela, alva em sua seguridade imponente, alta em sua virtude de árvore presente majestosa na natureza, dá ao homem uma visão de como deve-se agir para não morrer em vida e não viver sem uma vida sendo esta sempre deteriorada em seu contínuo existir quando a irracionalidade, os despotismos, governam a sua existencialidade. Não quer isto dizer que o homem assuma metafisicamente em si toda característica da árvore; mas, sim, que o homem, reto em seu desejo de libertar-se dos despotismos, reto como o frondoso tronco de toda frondosa árvore, esforce-se por sutilmente ser mais alto do que si mesmo interiormente, ser mais alto do que a sua consciência de ser na demasia de todas as horas, ser um alto senhor de si, ser um senhor alto de si. Os despotismos vão caindo pelas terras do interior quando a união dos povos interiores do Verdadeiro Eu, O Eu pronto para agir em sua liberdade segura de não estar arraigado a qualquer desgastado aspecto que lhe tenha desfigurado a excelência, exerce o poder na consciência daquele que deseja uma maior consciência definitiva de si. E com a consciência definitiva de si, estágio proporcionado pela consciência de si, a descoberta do que se é verdadeiramente, o jovem e o velho, isento dos domínios das paixões que assustadoramente inferiorizam, são senhores de si que conquistam a cada vez que mais aprofundam-se no conhecer de suas consciências a plenitude de sua existência. Mais do que um poder proporcionado pela escolha de Atena e Nike para exercerem a conduta de seu existir, o liberto dos despotismos valoriza mais a sua essência consciente da sua tendência a ser mais livre ainda nos fatores do tributo que a si mesmo concede.

O tributo é o autoconhecimento, o autoreconhecimento, o autodespertamento aprofundador do ser consciente de em si imperar prolongadamente, profundamente, realizadamente. Reagir aos despotismos ocasionados pelas paixões é agir impulsionado pelo regime imperial da sua vontade de querer pacificamente continuar a se fazer presente conscientemente no mundo. O homem dominado pelos seus próprios despotismos é menos do que joguete de seus momentos intempestivos, é raiz improdutiva que não amadurece em nenhum solo, é improdutiva tempestade de erros grosseiros amparados pela não-consciência de que possui intrinsecamente a possibilidade de libertar-se. Platão, deve-se novamente dizer, alerta para a periculosidade dos despotismos, dos “déspotas furiosos”, quase que como pronunciando o que atrasa a marcha vitoriosa de um homem que busca a sabedoria. Mesmo que um homem não busque a sabedoria e esteja ciente de pertencer ao todo maior que é O Homem, consciente de si como imperador de si, atado ao seu querer ser mais liberto do que desintegra-o existencialmente, ele percebe que é mais do que um escravo de suas próprias vilanias interiores. O maior de todos os vilões para o ser humano é o vilão interior que ataca, assola, contamina e assassina sutilmente, tendo como arma o poder das paixões, o poder das grandes ilusões nativas das paixões. Os vilões, os déspotas, interiores, são capazes de fazerem o ser por eles dominado apaixonar-se por si, integrando-o a um nada todo realizado, o nada da insuficiente força de não iludir-se, o nada da fraca forma de sempre acreditar-se livre dando ênfase às paixões que destroçam-no. Turbilhões são os vilões, gritando, gritando demais, gritando para tudo que é o todo do menos, destruindo vontades, destruindo verdades, construindo moradias de maravilhosas inverdades, construindo abismos de abismos de infinitos sonhos.

Os sonhos não servem ao homem que quer ser mais do que é. Para vencer a si mesmo, para vencer as suas paixões, o ser humano deve ter como a matéria-prima de seu ascender consciente o mais prático objetivar. Objetivando a sua consciência de poder ser livre de si mesmo, a coroa dos déspotas, as táticas dos vilões que roem o espírito e a mente, o corpo sendo também escravo, são impiedosamente aniquilados. Os sonhos não fazem de um homem inferior em si mesmo um homem superior para além de si mesmo. Se todos os sonhos fossem a guia do humano caminhar, eles substituiriam as paixões e seriam déspotas muito mais perigosos, torturantes, escravizantes e cruéis do que elas. Objetivos concretos, livres das fantasias fantasmagóricas dos sonhos, objetivos centrados no seguir Atena, objetivos centrados no seguir Nike, potencializam a busca da liberdade de si mesmo quando acorrentado nos mais subterrâneos calabouços que autoconstroem-se devido às paixões. Vilanias interiores autoconstruidas, vilanias d’espírito, vilanias d’alma, caem na caricatura de si mesmas vivenciando-se vencidas por forças maiores advindas do homem descoberto conscientemente em si, do homem que revela em si que ele não é um seduzido pelas próprias paixões. Na libertação das paixões não há escravização pelo sentido da liberdade alcançada. E nem há uma libertação completa das paixões mais viciantes que tendem a fabricarem muitas ilusões alucinantes. A guerra contra os despotismos interiores incessantemente prossegue mesmo que um homem acredite-se deles liberto. Haverá sempre, oculto ou visível, uma centelha de engano, uma certeza de fraquezas, uma escolha entre ceder ao caminho desgovernante das paixões ou ao caminho governante do poder sobre as paixões.

Decidir o que será o efetivo verdadeiro caminho, poderosamente decidir, equivale a descobrir em si muitos outros impérios. Déspotas caem sempre no mundo exterior, mas no mundo interior muitos déspotas sobrevivem mesmo conscientemente tendo sido vencidos. Porém, a virtude, a verdadeira virtude, a única coisa real que pode ser denominada virtude, consiste em guerrear contra si mesmo, guerrer contra os negativismos irracionalmente animalizantes e inferiorizantes que pululam interiormente no ser. A maior das guerras honradas é essa. A maior das guerras, uma guerra valiosa que decide o que o homem é. A maior das guerras, guerra potencializadora do permanecer da vitória sobre as paixões ou do retorno ao despotismo das paixões. A maior das guerras, guerra útil, guerra fabulosa de metas altas, guerra magnífica de retas sendas, guerra de fortes contra os mais fortes interiormente residentes. A maior das guerras, guerra entre Dionísio e Pan querendo predominar contra Atena e Nike querendo libertar. A maior das guerras, a guerra maior que decide o que o homem será, é ou não será, não é, nem levemente pensou conscientemente em ser. A maior das guerras, guerra armada entre vontade de crescer nas montanhas imortais do saber mais e a vontade de descerrar no sensitivamente decadente do nada querer saber. A maior das guerras, guerra do homem contra o próprio homem, gratificante para os que assim sabem guerrear, infrutífera para aqueles que esmorecem logo no primeiro campo de batalha. A maior das guerras, a guerra maior do ser humano, a guerra que mede a extensão de todo patamar do ser humano como criatura de si consciente. A maior das guerras, a guerra satisfatória para todo aquele que satisfatoriamente vence-se, a guerra tenebrosa para todo aquele que desesperadamente perde-se em seu próprio guerrear. A maior das guerras, a guerra que consagra aqueles que procuram consagrar-se campeões conscientes de si mesmos. A maior das guerras, a guerra que degenera aqueles que procuram degenerar-se por não serem tão fortes a fim de vencerem-se, a fim de não se submeterem às suas paixões.

O homem molda-se em si e jamais deve crer que o mundo molda-o. Despotismo também é crer que não se pode vencer a si mesmo. Déspotas da inferioridade estão vivos nesse pensamento menorizante. Aos fortes, cuja força até encontra-se nas sementes de suas fraquezas, a certeza de vencerem a si mesmos é o fundamento de sua guerra interior. Déspotas, todos os déspotas, tão furiosos, são vencidos e lançados no limbo pelos que crêem que firmemente podem vencê-los. Todo homem que se conhece, altamente consciente do seu conhecer-se, vence todos os seus déspotas na suavidade de saber que a eles não teme. Conviver com os despotismos interiores, as paixões, sabendo submetê-las à consciência do que são e não são, é uma forma de guerrear, é uma forma de vencer. Vencedores de si mesmos são déspotas imperando sobre si mesmos como soberanos que exterminam déspotas inimigos. Vencedores de si mesmos assim sobre si imperam.

Saudações Inomináveis a todos.


Links:

Platão - Wikipedia

Platão - Mundo Dos Filósofos

Platão - [greciantiga.org]

Sófocles - Wikipedia

0 Loucas Pedras Lançadas: