Berserk - Volume 17


Roteiro e Arte: Kentaro Miura
Tradução: Drik Sada
Letras: Danilo de Assis
Edição: Beth Kodama
Editora: Panini Brasil Ltda
Data de lançamento: Abril de 2017
242 pags.


Sinopse:

Dois anos se passaram desde o “Eclipse” que extinguiu o Bando do Falcão. Guts saiu em busca de vingança contra os God Hand e seus apóstolos, a começar por Griffith, renascido como Femt. Com muito esforço, ele venceu a batalha no ar contra Rosine no “Vale da Neblina”, mas entrou em conflito com os Cavaleiros das Correntes Sagradas, que o perseguiam a serviço do Vaticano. Gravemente ferido devido ao confronto com Rosine, Guts foi capturado e interrogado pela capitã dos Cavaleiros das Correntes Sagradas, Farnese, que carrega uma ardente fé. As provocações de Guts a irritaram, e ele acabou sendo mandado de volta para a jaula. E a noite chegou, trazendo consigo monstros à espreita…


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Repleto de revelações, conceitos que dão um novo tom ao enredo e uma tensa carga de psicológica explosão a cada página, este décimo sétimo volume de Berserk é uma leitura abrindo novas portas narrativas. A Saga Da Punição continua, com a conclusão do Capítulo Dos Acorrentados (Aqueles Que Não Vêem, A Noite do Milagre, Idas E Vindas e Manhã Da Verdade) e início do Capítulo Do Ritual De Nascimento (Revelação [partes 1, 2 e 3], Fissura Na Lâmina, Chama Fraca e Para A Terra Sagrada [partes 1 e 2]). Elementares acontecimentos neste volume enriquecem ainda mais a força da mitologia moldada por Kentaro Miura. E o maior conteúdo de significativa importância para a mesma é o maior volume da crítica religiosa que nos volumes anteriores já vinha sendo construída a fim de tomar um maior corpo durante o andamento desta saga.

Através dos olhos e da subjetividade de Farnese que somos primeiramente confrontado com questionamentos religiosos capitais. Utilizada como refém na fuga de Guts do acampamento dos Cavaleiros Das Correntes Sagradas, para que algumas questões que ele tinha acerca de sua perseguição por estes fosse por ela respondida, passou por terríveis momentos que abalaram sua antes indestrutível fé. Diante da perseguição dos Espíritos Malignos Noturnos, atraídos pelo Estigma de Guts, e de todos os fenômenos deflagrados pelos mesmos (a possessão de cães selvagens e até de um cavalo), ela se perde em uma paralisia que lhe afeta a própria consciência de si mesma. Levada ao extremo do turbilhão emocional na noite mais macabra de toda sua vida, junto com Guts, Farnese se deixa pôr diante de seus demônios e monstros interiores. Os desejos, os impulsos, as tensões, os recalques e toda a montanha de verdades abaixo da máscara religiosa de devota fiel transbordam para fora nela em um momento que não vou entregar aqui, pois seria um tremendo spoiler.

E diante de tantos “milagres” onde está o tão decantado “Deus” venerado por Farnese e cultuado como única verdade do mundo de Berserk pela Igreja Católica representada no mesmo? Um “Deus” represado em tantos corações que pedem por uma aliança maior com “Sua Realidade”? Um “Deus” que permite o demoníaco plano contingencial da existência dos God Hand e dos absurdos crimes de todos os tipos praticados pelos Apóstolos? As respostas estão dentro da própria trama e penetram a todo instante na nossa mente de leitor. Uma delas, insistindo no deflagrar de muitas outras indagações, surge imponente no Sonho Da Descida Do Falcão, que todos no Reino De Midland e, talvez, em redor do mundo, tiveram. Sonho anunciando desgraças, mortes, massacres e guerras; mas, tendo como reluzente esperança um luminoso Falcão a descer em direção ao mundo como um raio de esperança… Não é preciso muito para deduzirmos quem seja o dito Falcão, não é mesmo?

E todos os envolvidos com ele ressurgem neste volume, como que confirmando os Fios Do Destino atando todos no mesmo plano de desígnios conforme a realidade determinada pelo mesmo. O Rei De Midland, a Princesa Charlotte, o General Lavin, Zodd, Godeau, Rickert, Erika e Caska, em diversos níveis, somam-se ao Destino que as Asas Do Falcão movimentam acima de todos. Pelos olhos de Sir Lavin somos apresentados à Peste Negra (clara referência à apocalíptica epidemia que matou milhares na Europa Medieval) afetando os campos, cidades pequenas e seus moradores; morte do Rei coincide com a chegada a Midland de um misterioso exército; o retorno de Guts à casa de Godeau, para saber que Caska fugiu, o levar a ser questionado de frente com certas decisões que tomara; um sonho de Zodd o faz mirar um futuro encontro com o grande guerreiro que sempre sonhara enfrentar; e cada fato, como um chamado a um determinado lugar, leva todos a uma Terra Sagrada Onde Se Reúnem Ovelhas Brancas Cegas…

Para completar e fechar com sanguinária ênfase este volume, surgem no último capítulo Mozgus, O Cônego De Sangue, e seus Carrascos. Mozgus é o Inquisidor Do Vaticano mais cruel, capaz de cometer atrocidades inenarráveis em nome da fé no Deus ao qual ele serve com uma rigidez impar. Escoltado por Farnese e os demais Cavaleiros à mesma Terra Sagrada, o Templo De Saint Albion, encontra um ataque de camponeses em busca de vingança por um injustificado massacre em sua aldeia. No triste estilo dos cruéis inquisidores da História Humana, o pequeno ataque é contido e cada sobrevivente recebe uma tenebrosa morte na chamada Pena Da Roda. Uma sequência para leitores fortes acostumados com atrocidades, comprovando ainda mais que Berserk não é uma história que pegue leve ou amenize em sua crítica. Muitos que se deixam levar apenas pela violência, apagam a visão crítica de Miura quanto aos crimes da chamada Santa Inquisição e, no geral, de toda a História Católica em nome de uma visão de mundo crida ainda hoje, em nosso mundo, por seus seguidores e defensores como a única válida e adequada ao Ser Humano. O Cônego promete muito, ainda mais por um certo detalhe apresentado por Miura graficamente que precisa ser confirmado nos próximos volumes.

E Caska foi encontrada por Luka, uma camponesa que também se encaminha com outros camponeses para Saint Albion. Sim, O Destino bate Asas junto às Asas Do Falcão…

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!



























Pergunte A Uma Estátua


Imortal e inerte,
Qual é a sua
Palavra?

Imortal e inerte,
Qual é o seu
Ângulo?

Imortal e inerte,
Qual é o seu
Momento?

Imortal e inerte,
Qual é o seu
Espelho?

Imortal e inerte,
Qual é a sua
Imagem?

Imortal e inerte,
Qual é a sua
Verdade?

Imortal e inerte,
Qual é o seu
Caminho?

Imortal e inerte,
Qual é a sua
Estrada?

Imortal e inerte,
Qual é o seu
Mundo?

Imortal e inerte,
Qual é o seu
Universo?

Imortal?

Inerte?

Não há resposta
Agora,
Nem depois,
Nem amanhã,
Nem ontem.

Por isso,
Sou um iconoclasta
E apoio a iconoclástica
Religião de poucos
Que não veneram
Imortais
Inertes
Estátuas.

Uma marretada
E todas elas
São quebradas.

Inominável Ser
MEDITATIVO
ICONOCLASTA




Além - Christmas Humphreys - Tradução: Gilberto Bernardes de Oliveira


Além do âmbito do dia, além
Da vaga infrene do pensamento que,
Jubilosa, brame e canta, cheia
De benfajeza consciência; ainda além
Do alcance de toda imaginação
Que coisa existe? Dilata-se a mente, arredia
Da ignorância, constrói e sonha nobres
Sonhos de infância suprema;
Tudo em vão. O pensamento baqueia, desespera-se,
Mãos vazias confessam impotência.

Ciência: palavra cheia de arrogância.
Poder da mente: eis o pensamento enlouquecido de si.
Coração: eis a barreira
Ideal para a Realidade. A água mole
Derrui aos poucos a rocha forte e
Viva. O infatigável coração derruirá as
Muralhas graníticas do eu, do louco eu? Eis uma esperança vã;
Pois pensamento e sentimento, gêmeos da razão,
Geram-se no ventre da tosca dualidade.
Não é assim, não é de arma na mão,
Não é através de uma luta dura a dois
Que se ganha a batalha.
Súbito, porém, feito inimigo o amigo, e cada
Qual reduzido a pó
                               Que acontece?

Que degraus, que aclives levam
A uma nova consciência? Como saber mais
Que tudo, acima de tudo?
A palavra impressa é já um fardo;
A fala, um som sem significado.
Nem cá nem lá; algures, enconchada,
Está a Verdade que o homem busca,
Imutável e ilimitada...
Ela é interior. Ali, o cerne de toda investigação.
Ali, não na mira da distante aventura;
Agora, não na extensão remota do tempo;
Tal é a Verdade, por mais estéril
Que aos homens se afigure. Ela chameja, reluz,
Qual um facho que nas mãos da vontade
Arde conscientemente...
                         Tal é também a fantasia;

Imagem projetada em tela projetada;
Nada há aqui da verdadeira experiência.
A máquina do pensamento prossegue;
Sem nada de valor registrar; as páginas 
Do saber estralejam. Que função, pois,
Que imediato processo consciente
Irá arrancar a máscara da aparência, quebrar os simulacros,
Deixando assim fluir livremente a vida?

É a voz da Verdade invisível,
Uma luz em cada inteligência, uma luz
Que brilha na sombria estrada do paraíso.
Mostra ela a substância do além e brilha
Na escuridão para iluminar a triste
Arena de nossa orgulhosa consciência;
Bem como a claridade solar, com raios
De experiência pura. Somente assim
Conhecemos diretamente, como quem súbito
Depara com Deus e perde a consciência própria. Então
A razão, privada de visão final, poderá ainda
Criar um aflito trampolim para as alturas,
E, mesmo quando os pés fraquejarem
Em sua caminhada, o pensamento
Se manterá cativo de uma faculdade mais nobre
E de difícil acesso. Caminhemos, pois.

Essa é a vida — Não a conhecemos nem a iremos conhecer.
O Anônimo, o Vazio, o Deus-Pai. Já os homens
Lhe deram um milhar de nomes, macularam-no com sons.
Vemos a roupagem que lhe envolve o exterior, atributos de força
E dimensão sensível à empertigada mente. Mãos postas,
Choramos, imploramos com fervor
E desespero. Sabemos contudo —
E, aí está uma primeira luz nas trevas
Da Ignorância — que tudo aquilo que respira
É filho dessa magnificência. Se, então,
(intervém argumentando a voz da razão)
O Absoluto se conhece como Uno
E nesse se desdobra sem cessar,
Não deverá a menor partícula do Todo
Identificar-se, fundir-se com a Divindade?

Infelizmente não sabe tanto o pensamento. O pensamento,
Que alivia, despetala a rosa
Cuja beleza, intangível como a aurora,
Escarnece o escalpelo da investigação. O pensamento
Proclama com alarde que sois ISSO;
Contudo, não enxerga a Luz-escuridão
Tornada visível. Sede humildes, o olho
Da intuição não tem dimensão, sabe,
E sem dúvida vê instantaneamente
Com sua visão sem olhos — súbito vê,
Diretamente, sem ver, totalmente cônscio.

Além — a palavra fraqueja. Já a Verdade,.
Esfuziante como um raio, admira os portais
Do pasmo. Outro céu não há senão
O céu daqui; não há inferno senão
A maldade humana. Não existe além!

Assim a Sabedoria entronizada na auto-identidade,
Na não-dualidade de terra e céu,
Arde, mescla e fundo tudo aquilo que é dois,
E, com isso, tudo vê
A um só tempo cindido e indiviso.
Cresce a Sabedoria; a compreensão, qual
Rosa que, despertando suavemente, de botão se
Converte em flor ao ar tépido do dia,
Com destra e consumada habilidade
Subjuga um milhar de desesperos. Sabedoria — 
— Compaixão, cada qual com a sua majestade.
Palpitações gêmeas do coração do ser, fundem-se
Numa única comunhão.
Onde vacila a razão, a discórdia num acordo
Rompe a quietude total,
Estabelecendo-se a alegria. Então a Verdade
Explode, espalhando no ar
Mil pétalas e ribombando
Nos corredores da nossa ilusão.
Ruge a tempestade. A luz é máxima.
O silêncio, visível. Um vasto conteúdo
Luminoso consome a consciência. O pensamento,
Falto de propósito, sem luz, impotente,
Abandona o esforço.
A busca terminou; não existe o Além
Senão na vastidão imensurável da bem-aventurança,
Depois do presente, depois do imediato.



Christmas Humphreys




Minha Nobre Filosofia Do Foda-Se


Art by Brian M. Viveros

Foda-se suas questões abstratas nascidas de idéias arcaicas. A Metafísica está morta, vida eterna tenha a Foda.

Foda-se se seu mundo gira em torno de uma família. Famílias são ruinas, a pior forma de escravidão e prisão na Terra.

Foda-se cada vadia religião da Terra. Toda religião aborta a vontade, elimina a liberdade consciencial e esgota a alma.

Foda-se toda política e cada político. Toda politicagem é domínio do Irracional, tende sempre a ser o punhal na garganta dos mais fracos.

Foda-se se todo mundo segue por ali. Todos que seguem por ali estão fadados a serem cadáveres enterrados ali.

Foda-se se todo mundo faz o mesmo. Todos que fazem o mesmo do mesmo há séculos estão condenados a serem estátuas de bosta na História.

Foda-se se alguém tem riquezas. Toda riqueza é ilusão estagnadora, no fim o túmulo a todos iguala e os vermes comendo a carne putrefata dão o verdadeiro quinhão desta existência a todos.

Foda-se o amor. Todo amor é uma mecânica irrigadora de impulsos febris tortos, motivado por egoicos interesses e arma de fracos dominando outros fracos.

Foda-se o ódio. Todo ódio é uma repulsa ao que de autêntico existe no Outro, é forma de moral e mental deterioração, é fonte de verdadeira irrealização.

Foda-se toda lei. Toda lei é anti-natural, nenhuma lei jamais será abaixo dos céus a verdadeira punição para os crimes da Humanidade.

Foda-se a contemporaneidade. Toda a contemporânea sociedade é um câncer terminal em evolução cada vez mais abrangente, uma doença fatal infinitamente prepotente.

Foda-se a vida. Toda a vida é um sem sentido caminho sem objetivo maior além daquele que nos motiva a continuar a caminhar pela Terra: a descida à cova.

Foda-se a morte. Toda morte é um passo que define a quantidade de retalhos que carregamos para o outro lado em nossas podres almas imortais.

Foda-se tudo que existe. Tudo o que existe não respira, não se move, não evolui e apenas nos condena ao terrível axioma existencial de que somos racionais.

Foda-se você. Tudo que você é advém de uma composição de fatores arcaicos que os milênios moldaram, uma primitiva forma de vida muito inferior até mesmo ao menor dos protozoários.

Foda-se este fodido pensador aqui. Tudo que fodidamente penso deve ser ignorado, desprezado, esquecido e queimado em praça pública por você, sua fodida, seu fodido.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Foda-se.

Inominável Ser
FODIDO
FILÓSOFO
DO FODA-SE




Ode À Bunda I


Traprapunzel

Bunda,
Tua fama é bruta,
Dou todo meu dinheiro
Para enriquecer sua fartura!

Bunda,
Tua chama é faceira,
Remexendo com clareza
Nas mentes poluída!

Bundas!
Quero infindas bundas
Esfregadas na minha cara!

Bundas!
Orgias de bundas
PARA A NOSSA ALEGRIAAAAAA!!!

BUNDAS!!!

BUNDAS!!!

BUNDAS!!!

ADORO
E AMO
BUNDAS!!!

Inominável Ser
ADORADOR
AMANTE
DE BUNDAS





Griffith, O Falcão


“(...) Sonho… Alguns sonham em conquistar o mundo. Outros dedicam sua vida a promover a sua espada. Alguns sonhos são perseguidos por um único homem, que dedica sua vida a eles. Outros são como tempestades, que avassalam centenas ou até milhares de sonhos de outros homens. Não importa sua classe social ou origem… Seja realizado ou não, o sonho é a paixão dos homens. Ele nos sustenta. Sofremos pelo sonho, vivemos pelo sonho, morremos pelo sonho… Mesmo se abandonado, ele continua chamuscando em algum lugar de nossos corações… Provavelmente, até a nossa morte… Essa é a vida que qualquer homem deseja. Como um fiel apóstolo de um Deus chamado “Sonho”... Viver por viver… Só porque um dia nasceu… Eu não suportaria uma vida assim. (...)”

Griffith em um diálogo com a Princesa Charlotte


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

De todos os marcados pelo Destino em Berserk, a formidável obra-prima de Kentaro Miura, Griffith é o que mais, fundamentalmente, tem n’alma as características necessárias para o exato cumprimento dos Desígnios daquele. Indo do Paraíso aos Infernos, ascendendo por fim em um Desconhecido Abismo para todos os olhos humanos, ele alcançou seu sonho. Um sonho iluminado pelo alcance de um brilhante e maravilhoso castelo no alto de uma montanha, o símbolo daqueles que querem voar bem mais alto do que a grande maioria dos homens. E o Falcão Branco, com sua enganosa aparência que remete aos ingênuos Príncipes Encantados dos Contos de Fadas,  voou bem alto, seguiu seu caminho sangrento sem se importar com o baú recheado de retalhos que deixou para trás e pisou acima de infindáveis tapetes de cadáveres. Frieza, carisma, paixão, persistência, resistência, capacidade, ambição, genialidade, manipulação, dissimulação, hipocrisia, determinação, sagacidade, ousadia, crueldade e indiferença, unidos a um doentio amor próprio a esconder fraquezas que a ninguém mostrava, bateram asas junto às sanguinárias asas do Falcão.

Nascido pobre, correndo entre as vielas de sua cidade-natal, ele alimentava seu sonho à medida que crescia em si a ambição de transcender sua humilde origem. Tal desejo de sobrepujar a si mesmo e aos outros determinou toda sua marcha em direção ao topo, fossem quais fossem os meios utilizados para a realização desse sonho. Tornando-se um Mercenário, sua primeira escalada rumo ao tão sonhado auge existencial foi a formação do Bando do Falcão, do qual se tornou o líder incontestável. Caska, Rickert, Judeau, Pippin e seus demais seguidores eram como peças manipuláveis de seu extremo jogo em busca de poder. A nenhum deles, verdadeiramente, amava, sendo cada um parte descartável e necessária, ao mesmo tempo, para a consecução de seu grande sonho. Algumas vezes, em seus discursos, demonstrava possuir certo afeto por todos eles à vista dos olhos dos mesmos, que viam-no como a um Deus Supremo ao qual deviam servir até a morte. Hipnotizados pela majestosa e poderosa presença dele, eram todos, na verdade, manipulados hipocritamente através de palavras de efeito e incentivo de natureza objetiva, apesar de muitas vezes utópica, que apenas um gênio como ele seria capaz de fazer que atingisse a massa da maneira que ele quisesse. Mas, a chegada de Guts modificou e amplificou ainda mais as potencialidades ascensórias de sua alma a um nível permeado por sentimentos confusos e irresistíveis.

Ganhando Guts após uma disputa marcial onde demonstrou toda a grandiosíssima habilidade e técnica na Esgrima que possui; e, como uma consequência natural do inconsciente contrato entre Senhor e Propriedade, tendo-o como exclusivamente seu por tempo indeterminado, pôde manipulá-lo à vontade em seu jogo. Pois, diferente dos demais membros do Bando, Griffith sentia por ele um misto de amor, fascínio e ódio: amor de conotação ambiciosa, querendo mantê-lo para si apenas como um meio de abertura de determinados caminhos para sua elevação; fascínio por controlar um homem de natureza rude, rebelde e selvagem que não se tornou submisso e obediente como os outros; e ódio por estar a deixar-se sucumbir por aqueles dois sentimentos, logo ele, um homem dotado de um raciocínio lógico e pensamento crítico que abomina a simples demonstração de uma emoção, por menor ou mais sublime que a mesma seja. Tendo Guts em suas mãos, o mesmo lhe foi uma excepcional arma de guerra, não-descartável, para sua ascensão social no Reino de Midland, onde com talento e disciplina interior conseguiu tudo o que sonhava.

Aproximando-se com calma, técnica e cuidado calculados friamente do Rei de Midland, ele a este conquistou com sucessivas vitórias nos campos de batalha. Fazendo uso consciente de sua imensa beleza física, atração, magnetismo e presença, conquistou o coração da Princesa Charlotte com a única e exclusiva intenção de fazer dela apenas um meio de alcançar um patamar bem mais elevado, algo que igualmente faz parte de seu sonho. Eliminando inimigos como o irmão do Rei, o Príncipe Julius;  a amante deste, a Rainha, madrasta de Charlotte; e mantendo sob controle o principal Ministro Real, Foth, sempre contando com a ajuda de seu filhote de falcão mais fiel, Guts, abriu estradas que sabia serem propícias para seu brilhante e inquestionável sucesso diante da nobreza de Midland. Verdadeiramente sendo sutil como um animal político a se esgueirar como silenciosa serpente nas altas esferas do Reino, impôs, demonstrando a grande cultura e conhecimentos que adquiriu com o passar dos anos, as suas idéias na Côrte. Utilizando de algo muito além do concernente à sorte de um plebeu ter chegado tão longe, conquistou algumas mentes e almas que, em certa medida, o admiravam com curiosidade e exaltação. Muitos nobres, no entanto, não aceitavam a ideia de um plebeu como ele, sem sangue aristocrático e títulos herdados, ter tanta influência no Reino, infiltrando-se cada vez mais nas altas esferas com tato, diplomacia, elegância e simpatia treinadas com afinco para o total cumprimento de seu sonho. Ele conquistou o povo, o Rei, a Princesa, a condição de General, de Nobre e viu o Bando se tornar uma das Tropas Oficiais de Midland. Conquistou tudo isto, mas seu sonho era muito maior do que essas vitórias, vistas por ele como pequenas, e ele sonhava muito mais alto.

O Destino, no entanto, agitou suas próprias Asas no meio de toda essa estrada percorrida. O encontro com Zodd, O Nosferatu, trouxe à existência do Falcão o anúncio de determinações pré-estabelecidas para si por Obscuras Forças às quais não poderia manipular como estava acostumado a fazer com humanas vontades. Após salvar Guts de ser morto por Zodd e ser gravemente ferido, ele somente não foi morto por causa da presença do Behelit Vermelho, O Ovo do Rei Conquistador, em seu pescoço. O Artefato Místico Vivo, dado a ele por uma cigana, demonstraria no Futuro ser um Portal Dimensional de acesso à Realidade dos God Hand, Seres Divinos  responsáveis por todo crime e calamidade no Universo Material do mundo de Berserk. Zodd se tornou um dos Apóstolos de tais Seres através da posse de outro tipo de Behelit no Passado; porém, Griffith estava destinado a se tornar um deles, algo que não lhe chegou ao conhecimento diretamente pelos lábios do Imortal. Depois de tal encontro, o mesmo tomou ares de história fantástica para ele e os outros membros do Bando, quase sendo ignorado por muito tempo. As Asas do Destino bateram, então, a favor de eventos que direcionaram todos os diretamente envolvidos com Griffith para a realização do Pouso daquele na existência deste.

A vitória diante do General Boscone e da Tropa dos Santos Cavaleiros do Rinoceronte Púrpura, do Reino de Tudor que estava em guerra há cem anos contra Midland, foi o último grande feito de Griffith e do Bando. A lendária Tomada de Dordley também foi a porta de eliminação de algo sujo de seu passado, uma prova de que ele é um tipo de homem que fez tudo para vencer cada vez mais. O nobre responsável pela administração da fortaleza mais importante de Midland era o Duque que, anos atrás, possuira o corpo do Falcão por uma noite em troca de ao mesmo oferecer riquezas que seriam necessárias ao Bando. Um detalhe nesse envolvimento com o Duque chama a atenção, no entanto: o mesmo era um pedófilo que mantinha em seu castelo como serviçais meninos que utilizava como objetos sexuais. Assassinando o Duque, que por ele era apaixonado com loucura e fogo, após o término da batalha à frente de Dordley, uma parte imunda de seu caminho fora apagada. E tudo foi belo, então, todas as portas antes fechadas seriam finalmente abertas, o castelo seria alcançado, o sonho seria consumado! O Destino, no entanto, fez Sua Vontade esmagar, misera e desgraçadamente, a sua própria vontade.

Seu maior filhote e fiel seguidor cego, Guts, abriu os olhos e decidiu abandonar o Bando para ir em busca da realização do próprio sonho dele. Essa decisão desestabilizou Griffith de um modo tempestuosamente furioso, pois nenhum de seus objetos descartáveis, e o não-descartável maior de seus soldados, de estimação, poderia abandoná-lo na estrada de seu sonho. Em uma atitude arrogante e caprichosa de posse, desafiou Guts para um duelo, já que se o ganhara através de um, apenas em outro poderia perdê-lo; desta vez, no entanto, um golpe apenas foi capaz de derrotá-lo e, assim, humilhado em seu orgulho e cobiça, iniciou-se sua assombrosa derrocada. Só lhe restando outro meio para, enfim, ter um reino literalmente em suas mãos, na noite do mesmo dia da partida de seu seguidor maior, entrou no quarto de Charlotte e a seduziu. Descoberto, foi aprisionado, chicoteado pelo Rei e mantido cativo em uma das celas da Torre da Ressurreição durante um ano. Um ano no qual foi entregue a um psicótico carcereiro que o esfolou pouco a pouco, da cabeça aos pés; cortou-lhe a língua; e destruiu-lhe os tendões das mãos e dos pés. O Behelit foi perdido, vindo a cair no esgoto quando o carcereiro se assustou com o mesmo. O Destino, Este nada desprezível e altíssimo Mestre em Altos Ensinos, garantiria que o Artefato voltaria às mãos dele.

Um ano se passou, então, e o que restava do Bando, quase totalmente dizimado após seu aprisionamento, resgatou-o da Torre com a ajuda de Charlotte. Vários inimigos Guts (que retornara ao Bando após saber que o mesmo se tornara um grupo de ladrões perseguido pelo Reino), Caska, Judeau e Pippin tiveram que enfrentar no caminho de saída da prisão. O Rei, então, ordenou que a mais violenta das tropas de Midland, a dos Cães Negros liderada por Wyald, fosse ao encalço dos Falcões. Wyald revelou ser um dos Apóstolos dos God Hand e, à beira da morte, após uma batalha contra Guts, exigiu que Griffith, preso por suas mãos, evocasse com o Behelit aqueles Seres. Tal não ocorreria e Zodd, então, surge e salva o quebrado líder do Bando matando Wyald, partindo em seguida. Acontecimento estranho que anunciava mais estranhas situações à frente, dos quais o sonhador ex-mercenário, ex-General e ex-Nobre sequer desconfiaria graças ao absurdo do estado no qual se encontrava. Sem poder proferir uma palavra ou erguer sua espada, com as asas cortadas e trituradas, dependeria de outros pelo restante de seu existir material. Algo humilhante e inacreditável para um homem como ele, excelso e augusto campeão invicto de batalhas que em um dourado ontem ele fora. O sonho continuava vivo nele, mesmo assim, e tal sonho o impulsionou para a frente, uma obra do Destino que se cumpriria finalmente.

Desesperadamente, ele conseguiu forças para tomar as rédeas de uma carroça em suas destroçadas mãos e partiu em disparada do pequeno acampamento do Bando longe de outros possíveis perseguidores. O grupo, tendo Guts à frente, saiu em perseguição à carroça, que se destroçou à beira de um lago e feriu ainda mais o combalido corpo de seu condutor. Este, então, em meio às águas do mesmo, reencontrou o Behelit e, instantes depois, aqueles o encontraram. Os Apóstolos surgiram atrás dele vários metros e, Ativado por seu sangue, o Behelit abriu o Portal de acesso à Dimensão dos God Hand, que surgiram aterrorizando a todos os humanos presentes. Na Terra Prometida, na Hora Prometida, no Momento Prometido, foi dada uma escolha ao combalido líder amado dos Falcões, uma escolha que seria única. Os Arcanjos Void, Slan, Ubik e Conrad não poderiam torná-lo, por eles mesmos, O Quinto; por livre escolha dele, que deveria aceitar ou não o caminho determinado por Deus, o Renascimento como o Quinto Dedo da Mão Daquele seria baseada no sempre acessível espaço do essencial e útil Livre-Arbítrio. Bastava que ele oferecesse, espontaneamente, todos os membros do Bando como Sacrifícios a Eles e aos Apóstolos para sua Derradeira Ascensão. Ele teve uma escolha. Ele poderia continuar como estava, destruído e humilhado. Ele poderia ter salvo as existências daqueles que dedicaram tudo que tinham ao cumprimento do tão distante sonho dele. Ele poderia ter dito Não. Poderia, mas diante da possibilidade de alcançar por completo O Sonho Maior que habita n’almas de todos os ambiciosos, o da Eternidade e da sobrepujação da efêmera Condição Humana, ofereceu os seus seguidores em Sacrifício e se tornou Femt, As Asas das Trevas com uma simples frase:

“Eu ofereço”

Femt, que encontrou Deus durante sua Imersão na Nova Condição Existencial. Femt, que trará ao mundo A Verdadeira Desgraça. Femt, que trará ao mundo A Verdadeira Miséria. Femt, que trará ao mundo A Verdadeira Maldição. Femt, que bateu Asas acima dos cadáveres mutilados daqueles que um dia foram-lhe fiéis seguidores e que amavam-no. Femt, que estuprou Caska (anteriormente já bastante violentada pelos Apóstolos), que amava o homem que ele anteriormente fora, na frente de Guts, namorado daquela, apenas como uma demonstração de superioridade. Femt ou Griffith, tal Ser sempre se viu superior aos demais seres terrestres, os quais queria como seus obedientes filhotes tais como possuía os do Bando. Femt, que é O Definitivo Sonho Maior Realizado de uma criatura capaz de tudo para subir altíssimos degraus na Escala Evolutiva e realizar seu Verdadeiro Destino.

Mas, mesmo como Ser Divino, isto ainda é pouco, muito pouco, para ele.

Femt quer bater Asas ainda mais alto.

Femt quer ainda muito mais.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!


“Esse é o sinal de que o Quinto Mensageiro desceu dos céus. O Mensageiro é como o Falcão das Trevas. Senhor das Ovelhas Negras Pecadoras e Rei das Ovelhas Brancas Cegas. Aquele que levará o mundo à Era das Trevas.”

A Profecia do Lago de Sangue